“Dez vidas eu tivesse, dez vidas eu daria”. Não foi à toa que a frase do alferes Joaquim José da Silva Xavier foi citada, pelo professor Antonio Carlos Gomes da Costa, em um dos documentos que, hoje, fazem parte da educação brasileira: a “Carta do Caminho”, um manifesto do movimento Conspiração Mineira pela Educação. Sim! Antonio Carlos dispensou os títulos acadêmicos e orgulhava-se de ser chamado simplesmente de “PROFESSOR”. E, não raro, era assim tratado, de forma seminal, pelos que o cercavam. A palavra era usada pelos profissionais que o conheceram, familiares e os muitos amigos que conquistou em sua trajetória. Professor! Muitos podiam esquecer o seu nome, porém jamais a forma de tratamento. E, para ela, os olhos de Antonio Carlos demonstravam um afeto de agradecimento semelhante ao da criança acolhida, como tantas foram as que suas obras, ações e reflexões proporcionaram o acolhimento pelo mundo afora.

Mais que dez vidas, com certeza, teve o nosso professor! Vidas atuantes nos mais diversos segmentos. Não nos causa surpresa, após a sua partida, a infinidade de homenagens que temos visto acontecer. Em escolas, ONG’s, no meio corporativo, as manifestações de saudade e um coro de vontades para que o “professor” pudesse ter dedicado mais dez vezes dez vidas à melhoria da educação brasileira têm sido uma constante, nos últimos dias.

Dono de um imenso realismo pedagógico, como ele mesmo definia, Antonio Carlos Gomes da Costa viveu, na prática, e oportunizou, com suas reflexões e posturas, que outros também vivessem a maior de todas as aventuras pedagógicas: perceber o jovem educando como ator principal do cenário educativo. E mais: percebê-lo como FONTE – de respostas, de soluções e de um imenso potencial. Através dos programas sociais cuja mão determinada do professor auxiliou na elaboração, implementação e condução, centenas de milhares de jovens, antes excluídos da cena da descoberta, vivenciaram a feliz escalada da solidão ao encontro. Com ele, aprendemos a importância de “pequenos nadas”. O termo foi surrupiado carinhosamente de sua grande e fiel companheira na vida e na profissão, Maria José Gomes da Costa. Ou, simplesmente, “ A” Maria José, de quem ele falava assim, parecendo emitir letra maiúscula no A, com toda a ênfase e o reconhecimento de quem soube dar valor à também pedagoga que o inspirou, incentivou-o nas trilhas da Educação e que, em todos os momentos, foi mais que um suporte, uma aliada nos projetos e realizações. A ressignificação dos significados e a valorização dos valores, sem o menor medo dos pleonasmos. Até os seus últimos dias, Antonio Carlos viveu, verdadeiramente, plenamente, ensinando a fazer a diferença, sem ter receios de acreditar na liberdade – para ele, mais do que condição, um produto da ação educativa.

O professor que dizia a todo momento sobre a importância da presença e trouxe à pedagogia o pilar indispensável do fazer-se presente para fazer a diferença na vida das crianças e dos jovens não está mais presente fisicamente entre nós. Mas, pelos caminhos e descaminhos da ação educativa que todos os dias abre-se à nossa frente, com desafios novos e antigos, Antonio Carlos deixou-nos de presente um legado sólido. Mais que dez vidas de contribuições para uma educação de qualidade. Da atuação na antiga Febem de Ouro Preto ao Estatuto da Criança e do Adolescente, do pioneirismo nas ações de responsabilidade social junto ao âmbito escolar a uma nova visão da educação no cenário corporativo, da imersão profunda em programas sociais pelo Brasil afora ao reconhecimento pela Unesco, das obras literárias ao amplo material pedagógico : com certeza, Antonio Carlos viveu bem mais que dez vidas! Nós, mais próximos de Antonio Carlos Gomes da Costa, aprendemos que o agradecimento vazio não constrói. Por isso, queremos muito mais do que demonstrar nossa gratidão a cada um que dedicou textos, mensagens, e-mails, citações em eventos. Um dos mais significativos, que sintetiza a essência do papel de Antonio Carlos na vida dos educandos, veio de uma antiga aluna de Ouro Preto, Conceição Domingos, a “Sãozinha”: “Antonio Carlos e Maria José foram as pessoas mais importantes na minha adolescência e a minha entrada na vida adulta, não seria o que foi se não fosse por eles terem me dado as quatro mãos, quando sai de Ouro Preto. Sinto-me muito feliz por tê-los conhecido... Meu OBRIGADO será para sempre!!! Deus dê a força necessária pra irem em frente... Antonio Carlos vai gostar de ver que a luta dele continua na mão de vocês”.

Como dizíamos, mais que afirmarmos que estamos gratos, queremos convidar a todos que acreditam nos ideais do PROFESSOR para que estabeleçam conosco tais gestos de continuidade da grande rede pela melhoria da educação, conclamados pela Sãozinha e, com certeza, de outras tantas pessoas que sabemos o nome e a infinidade das quais sequer temos conhecimento.

Que acreditemos na possibilidade dessa aventura pedagógica por um Brasil e um mundo luminosos. De forma pró-ativa, cada um em seu local de atuação, que continuemos a estabelecer parcerias, investir nos potenciais e, fundamentalmente AGIR – palavra que, depois de “PROFESSOR” provavelmente deveria ser uma das que mais faziam brilhar os olhos de Antonio Carlos Gomes da Costa.

Obrigado a todos, pela solidariedade, pelos pequenos nadas acolhedores, nesse momento. E mãos à obra, pois há ainda muito trabalho pela frente e, mais que necessário, diria o professor, é imprescindível continuar!

(O autor do texto, Ney Mourão, é jornalista, poeta e educador. Seus caminhos cruzaram-se com os de Antonio Carlos Gomes da Costa, em diversas ocasiões profissionais. Dedicou esse texto, escrito com o coração, como um gesto de reconhecimento e gratidão pelos bons exemplos do Professor.)
 

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