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Aline Gatto Boueri -19/07/2007 |
Antonio Carlos Gomes da Costa é pedagogo e vencedor do Prêmio Nacional de
Direitos Humanos de 1998. Participou da formulação e da redação do Estatuto
da Criança e do Adolescente (ECA), que completou 17 anos dia 13 de julho.
Presente na oficina sobre redução da maioridade penal, que reuniu jovens e
instituições de direitos humanos de todo o Brasil no Viva Rio, entre os dias
16 e 17 de julho, Gomes da Costa não acredita que a idade de imputabilidade
penal possa ser reduzida no Brasil. Ainda assim, alerta: “Políticos
oportunistas vão sempre querer aproveitar a indignação e a dor das pessoas
para angariar simpatia e votos.”
Quais foram as maiores dificuldades em emplacar o ECA, quando foi criado há
17 anos?
As maiores dificuldades do Estatuto se dividem em duas etapas. A primeira
diz respeito às dificuldades de elaboração. Nós precisamos reunir pessoas
com formações muito distintas: sociólogos, psicólogos, juristas, pedagogos,
assistentes sociais, militantes de movimentos sociais, e construir consenso
com pessoas de formações tão diferentes é muito difícil. O Estatuto foi um
grande consenso de 267 artigos, e cada um tinha que gerar um consenso em
torno dele neste grupo tão diversificado.
O segundo momento foi a sua aprovação no Congresso Nacional junto às
lideranças dos partidos. Nós tivemos que fazer lobby, corpo-a-corpo,
procurar parlamentar por parlamentar. Eu lembro que até no banheiro nós
cercamos parlamentares para convencer a apoiar o Estatuto.
O senhor defende que a redução da maioridade penal é inconstitucional. Quais
são os principais argumentos para alegar a inconstitucionalidade da medida?
Primeiro, a idade de imputabilidade penal é uma cláusula que faz parte dos
direitos humanos. Os direitos humanos, na Constituição de 1988, foram
considerados cláusulas pétreas, ou seja, que não podem ser alteradas. Então
acho muito difícil que haja uma regressão em termos de direitos humanos. É
claro que políticos oportunistas vão sempre querer aproveitar a indignação e
a dor das pessoas para angariar simpatia e votos, mas acho que a maioria do
Congresso Nacional não será capaz de aprovar uma legislação dessa natureza.
O senhor fala que é necessário mudar o tratamento dado ao jovem em conflito
com a lei, ainda que o ECA já os contemple há 17 anos. O que o senhor acha
que falta?
Nós mudamos o panorama legal. Falta reordenar as instituições em conteúdo,
método e gestão e falta melhorar as formas de atenção direta, preparando
melhor as pessoas que trabalham com esses jovens, para que o tratamento seja
mais humano, mais eficiente, mais eficaz.
O que o senhor chama de tratamento mais humano, mais eficiente e mais
eficaz?
Hoje o adolescente privado de liberdade não é privado apenas de liberdade,
ele é privado de respeito, dignidade, integridade física, psicológica, moral
e individualidade. Nós precisamos de instituições que privem o direito de ir
e vir, mas não privem dessas outras coisas indispensáveis.
O ECA é considerado revolucionário na proteção aos direitos da criança e do
adolescente, mas alguns pontos ainda são criticados, como a questão da
inimputabilidade penal do jovem. Por que o senhor acha que existe a sensação
de que o jovem não é punido?
Porque alguns segmentos da sociedade não leram o Estatuto ou o fizeram de
maneira enviesada, de uma maneira incompleta. Isso leva à noção – difundida
por certa parte da mídia – de que o Estatuto dá muitos direitos às crianças
e adolescentes e não lhes dá deveres, quando na verdade o artigo 6º do
Estatuto, que é a regra geral de interpretação, diz: na interpretação desta
lei leve-se em conta os fins sociais a que ela se destina, as exigências do
bem comum, os direitos e deveres individuais e coletivos, e a condição
peculiar da criança e do adolescente como pessoa em desenvolvimento. Ou
seja, direitos e deveres que são aplicados a todos os artigos do Estatuto.
O tráfico de drogas é considerado umas das piores formas de trabalho
infantil. Ainda assim há pessoas que consideram o jovem que trabalha na
atividade mais autor do que vítima de violência. O que o senhor acha que
deve ser feito para que haja a consciência de que este jovem é violentado
quando cooptado pelo tráfico?
Eu acho que o que a sociedade brasileira deveria fazer não é abaixar a idade
de imputabilidade penal do jovem, mas aumentar a imputabilidade dos adultos,
aumentar o rigor das penas contra aqueles que fazem o uso instrumental de
jovens para atividades criminais.
Crianças e adolescentes ainda são vistos como protagonistas de atos
violentos e a influência dos adultos sobre seus atos é pouco reconhecida
pela sociedade. Qual é o papel do ECA em mudar essa visão?
Eu acho que a grande ajuda que o Estatuto pode dar é sair do papel, porque
ele é uma legislação de direitos humanos, mas não é excessivamente protetora
da criança e do adolescente, aliás, o Estatuto responsabiliza o adolescente
a ponto de levá-lo a ser julgado por um juiz, acusado por um promotor e
defendido por um advogado. Então o Estatuto é uma legislação exigente e
precisa ser reconhecido em seu real caráter, em sua real natureza, e não as
imagens que se formaram em torno dele, que são imagens falsas.
A violência cometida contra adolescentes é, em grande parte, cometida por
adolescentes. O senhor acha que falta também ao jovem incorporar o ECA?
Eu acho fundamental que isso aconteça. Acho que o conhecimento do Estatuto
deveria ser incorporado à vida escolar, assim como o conhecimento da
Constituição do país e de outras leis. O ECA é a Constituição da infância e
da adolescência brasileira, e assim deveria ser entendida e estudada por
eles.
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