
ENTREVISTA
Para um dos idealizadores do Estatuto da Criança e do Adolescente, lei ainda
enfrenta desafio de se fazer valer numa sociedade conservadora.
Não é fácil mudar 500 anos de história com decretos. Apesar disso, o
Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) pretende bater com o martelo da
lei na dura pedra das mentalidades feudais. Em pleno século XXI, ainda
existe quem ache natural o trabalho semi-escravo de adolescentes –
acobertado pelo eufemismo do aprendizado que educa – ou a manutenção da
desigualdade social pelo apartheid educacional: escola rica para os ricos,
escola pobre para os pobres. Um dos mentores do ECA, o pedagogo Antonio
Carlos Gomes da Costa encara positivamente os 12 anos do estatuto e diz que
a mudança já começou.
Revista Educação – No mundo atual, a criança e o adolescente recebem a
devida atenção?
Antonio Carlos Gomes da Costa – No mundo globalizado, as crianças e os
adolescentes deveriam ser uma base de consenso ético e político no campo das
relações entre países e, dentro de cada país, entre as diferentes regiões e
camadas sociais. Infelizmente, isso está longe de acontecer. A globalização
econômica pressupõe e exige uma globalização social. A atual liderança do
mundo, infelizmente, está muito aquém dos desafios que o processo
civilizatório coloca para a humanidade neste início de século e de milênio.
Sou otimista. Acho que as correntes profundas da história nos haverão de
conduzir a um novo patamar ético-político. Não é preciso ser um futurólogo
para perceber que a presente ordem mundial é insustentável em termos
econômicos, ambientais e sociais. Insistir nesse modelo seria, a médio e
longo prazos, um suicídio planetário. A mudança desse quadro já começou.
Educação – O trabalho não pode ser uma alternativa de inserção social da
criança e do adolescente? Qual o limite entre o aprendizado e a exploração?
Gomes da Costa – O trabalho do adolescente deve ser um trabalho educativo.
Nele, a dimensão produtiva deve estar subordinada à dimensão formativa. Sem
uma clara visão desse ponto, os limites entre a aprendizagem e a exploração
ficam muito fluidos. A legislação brasileira, no entanto, tem avançado nesse
aspecto.
Educação – Qual o balanço dos 12 anos do Estatuto da Criança e do
Adolescente?
Gomes da Costa – Estamos no caminho certo, não estamos parados. O Brasil
avançou muito nestes anos, mas estamos ainda muito longe de chegar lá.
Educação – Quais os principais avanços e entraves?
Gomes da Costa – Os avanços no campo das mudanças no panorama legal são
extraordinários. Colocamos em nossa Constituição o que havia de melhor nas
normas internacionais. Fizemos o mesmo com as constituições de todas as
unidades federadas, repetindo a façanha em milhares de leis orgânicas
municipais. Não conheço, em todo planeta, nenhum esforço de elaboração
legislativa de tal envergadura. No plano do ordenamento institucional,
criamos milhares de conselhos municipais e tutelares, fundos da infância e
da adolescência, além do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do
Adolescente (Conanda) e de conselhos estaduais nas 27 unidades da Federação.
Os municípios, hoje, investem nessa área mais do que em qualquer outro
período de nossa evolução histórica.
Educação – E os problemas?
Gomes da Costa – O ponto fraco da política está no reordenamento dos órgãos
estaduais – como as antigas Febems –, que se fez ainda de forma parcial na
maioria dos Estados e de forma apenas nominal em alguns outros. Isso tem
gerado enormes problemas no atendimento aos adolescentes em conflito com a
lei. Esse vem sendo o "calcanhar-de-aquiles" do ECA.
Educação – Como é possível ao ECA coexistir com as Febems?
Gomes da Costa – Implantar o ECA, mantendo as Febems com a mesma estrutura e
cultura do passado, é como tentar ouvir um CD numa radiola de 78 rotações. É
impossível. Essas instituições não devem mudar apenas de nome. Elas precisam
reformular-se inteiramente em conteúdo, método e gestão. São heranças
trágicas do parque jurássico institucional do autoritarismo.
Educação – A redução da maioridade penal coibe a delinqüência?
Gomes da Costa – Não. A redução da idade de imputabilidade penal é uma
cortina de fumaça para encobrir a omissão do Estado e da sociedade em
relação ao desenvolvimento pessoal e social das novas gerações. É uma
solução do tipo apagar fogo com gasolina.
Educação – Os programas de renda mínima podem tirar as crianças da rua ou
do trabalho?
Gomes da Costa – Os programas de renda mínima ajudam a família que, por sua
vez, vai ajudar a criança. Eles mudam uma velha tradição, que era de ajudar
as crianças – com caixinhas de engraxate, atividade de jornaleiro e outras
formas de trabalho abusivo e precoce – para as crianças ajudarem a família.
Condicionar esses repasses à freqüência regular na escola é um caminho
promissor para superarmos a vida na rua e a exploração da mão-de-obra
infanto-juvenil.
Educação – Como o Estado pode ajudar os pais a ajudar os filhos?
Gomes da Costa – Uma das maiores tragédias do Brasil e da América Latina
reside no fato de que, em mais de 500 anos de evolução histórica, nossas
elites não foram capazes de responder a uma questão básica: "O que fazer com
os filhos dos pobres?". A resposta correta deveria ser: "O mesmo que fazemos
com nossos filhos." Em nossa sociedade, porém, sempre se procurou fazer
coisas diferentes com os filhos dos pobres, como pô-los para trabalhar muito
cedo ou criar estratégias de atendimento que têm, em comum, o propósito de
oferecer uma pobre educação pobre para os pobres mais pobres. Na verdade, o
que devemos oferecer aos pobres é uma rica e diversificada gama de
oportunidades educativas. Uma rica educação rica, que se revele capaz de
desenvolver o potencial e a riqueza; aquelas promessas que cada um traz
consigo ao vir a esse mundo.
Educação – Isso não é um pouco utópico quando se pensa na tradição
conservadora brasileira?
Gomes da Costa – Para mim, um bom projeto pedagógico para crianças e
adolescentes "vítimas de desigualdades sociais" é aquele em que as pessoas
de classe média dizem "gostaria de ter tido uma educação assim", ou então
"essa é a educação que eu sonho para meus filhos". Resumindo, enquanto o
Estado e a sociedade brasileiros não tiverem clareza sobre o que fazer com
os filhos dos pobres, vamos continuar nossa tragédia secular de reprodução
intergeracional da pobreza, da ignorância e da brutalidade.
Educação – Qual a percepção do saldo deixado na área de educação ao
término do governo Fernando Henrique Cardoso?
Gomes da Costa – Houve avanços inegáveis em termos de expansão quantitativa,
avaliação externa e nos esquemas de financiamento do ensino público. O
problema da qualidade, porém, está longe de ser superado. É tarefa para
muitos anos de empenho, firmeza e constância de propósito.
Educação – Como o governo Lula poderá contribuir para a aplicação do ECA?
Gomes da Costa – De duas formas: primeiro, ampliando a qualidade e
melhorando a cobertura das políticas sociais. Depois, aprofundando a
efetividade dos mecanismos de promoção e defesa dos direitos humanos.
Educação – Os conselhos tutelares realmente funcionam?
Gomes da Costa – Há conselhos que funcionam muito bem. Outros o fazem
precariamente e alguns existem apenas no papel. Clientelismo, fisiologismo,
burocracia, corporativismo e falta de cultura democrático-participativa são,
geralmente, os responsáveis por essas situações.
Educação – Faltam recursos?
Gomes da Costa – Não se trata apenas de falta de recursos, como muitos
imaginam. O que nos falta é capital social para tirar do papel as conquistas
da democracia brasileira em termos de participação efetiva da sociedade na
formulação das políticas públicas e na cobrança dos direitos.
Educação – Os pais podem evitar que o filho seja atraído pelo crime?
Gomes da Costa– Os pais devem estabelecer uma relação de permanente
abertura, reciprocidade e compromisso com seus filhos. É o que eu tenho
chamado de "pedagogia da presença". Sem isso, o resto não funciona.
Educação – A escola pode ser cenário para inserção do jovem no mundo das
drogas. Como combater isso?
Gomes da Costa – Sou contra combater as drogas. Mais importante do que isso
é promover uma cultura de cuidado e autocuidado entre as novas gerações.
Devemos trabalhar em função do jovem que queremos e não combatendo o jovem
que não queremos.
Educação – O que o ECA promove de mudanças na relação entre professores e
alunos?
Gomes da Costa – O ECA mexe com a estrutura de poder na escola e prefigura a
gestão democrática da nova LDB (Lei 9394/96). Os artigos 53 a 59 do ECA são
como uma minirreforma educacional, mas ainda não estão refletidos nos
regimentos de nossas escolas públicas e privadas. O dia em que isso
efetivamente acontecer, muita coisa vai mudar na estrutura e no
funcionamento dos estabelecimentos de ensino.
Educação – Será possível diminuir, também, o vandalismo e a indisciplina,
principalmente nas escolas públicas?
Gomes da Costa – O vandalismo e a indisciplina nas escolas públicas são
apenas sintomas de uma crise mais ampla e mais profunda, que se refere à
perda crescente de qualidade nas relações entre professores e alunos,
direção e corpo docente, escola e comunidade, educadores familiares e
educadores escolares. A escola está perdida em seu próprio labirinto. É
preciso tirá-la de lá.
Educação – Como a escola pode contribuir para que o jovem não se
encaminhe para a delinqüência?
Gomes da Costa – Deixando de ver os jovens como problema e passando a
encará-los como solução. Como fonte de iniciativa (ação), liberdade (opção)
e compromisso (responsabilidade). Os adolescentes não suportam mais serem
tratados como receptáculos de conhecimentos, valores, atitudes e
habilidades.
Educação – Quais os limites da autoridade na escola e no lar?
Gomes da Costa – Os jovens precisam de limites e, de certa forma, os
reivindicam. O limite da autoridade deve ser o respeito à integridade
física, psicológica e moral dos educandos. Nós, educadores familiares e
escolares, devemos ser exigentes com os nossos filhos e alunos. Mas não
devemos, jamais, colocar a exigência antes da compreensão.
Educação – Assistimos a diversos casos de violência praticados por jovens
de classe econômica alta. Onde a educação está errando?
Gomes da Costa – A violência não é dos jovens de elite. A violência é da
própria elite brasileira. Uma elite incapaz de fazer uma política econômica
e social verdadeiramente redistributiva e autopromotora. Uma elite incapaz
de enxergar qualquer coisa que não seja seu interesse particular e imediato.
Esse quadro, porém, parece estar começando a mudar. No front empresarial já
se detectam alguns sinais que apontam nessa direção. Em termos mais
estruturais, no entanto, eu diria que quase tudo ainda está por fazer. É
preciso que a sociedade demande, com força e nitidez, um novo contrato
social. O resultado das eleições de 2002 parece apontar nessa direção.
Resumindo, a violência individual e grupal dos jovens da elite chega a me
parecer muito pequena, residual mesmo, quando comparada à violência
estrutural da própria elite.
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