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Entrevista com Antônio Carlos Gomes da Costa

Entrevistado:
Prof. Antonio Carlos Gomes da Costa
Perguntas por Ana Lagôa, mediada por Juliana Cirne
Editada por Ana Lagôa
14 de outubro de 2007
Você é mestre quando aprende?
Ouvir o professor Antonio Carlos Gomes da Costa falar sobre educação é ao
mesmo tempo deleite e desconforto. Deleite porque suas palavras se sustentam
em erudição da melhor qualidade e uma vida dedicada à luta pela melhoria das
condições do nosso ensino. Desconforto porque ele nos coloca questões
prementes deste que é talvez o grande desafio do século XXI – educar para a
nova sociedade dando forma e sentido humano a essa mesma sociedade.
Consultor de projetos educativos da Oi Futuro, ele falou para a Revista do
Planeta sobre esse desafio.
Quem é Antonio Carlos Gomes da Costa?
Pedagogo. Mineiro. Trabalhou na Febem, em Minas Gerais, e na Organização
Internacional do Trabalho (OIT), em Genebra, Suiça. Fez parte da equipe de
peritos do Comitê dos Direitos da Criança, da Organização das Nações Unidas
(ONU) e da equipe que criou o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Sobre a Educação Interdimensional, acesse: www.modusfaciende.com.br
Revista Planeta - O que é afinal a educação interdimensional?
Prof. Antonio Carlos Gomes da Costa - A UNESCO criou uma comissão
Internacional sobre Educação para o século XXI com o propósito de fechar o
debate pedagógico do século XX (fazer um balanço) e visualizar as trilhas e
expectativas para o século XXI. Este trabalho conjunto foi coordenado por
Jacques Delors, então, Ministro da Cultura da França. A respeito dos fins da
educação, o relatório afirma:
A educação deve contribuir para o
desenvolvimento total da pessoa – espírito e corpo, inteligência,
sensibilidade, sentido estético, responsabilidade social, espiritualidade.
Todo ser humano deve ser preparado especialmente graças à educação que
recebe na juventude, para elaborar pensamentos autônomos e críticos e para
formular seus próprios juízos de valor, de modo a poder decidir por si mesmo
nas diferentes circunstâncias da vida. A educação interdimensional é a
proposta pedagógica que procura articular os fins e os meios da ação
educativa, visando tornar real esta expectativa com base numa visão do
homem, do mundo e do conhecimento consistente com as exigências dos novos
tempos. O relatório nos fala da necessidade de uma educação pluridimensional
e assim fundamenta sua necessidade: Contesta-se a pertinência dos sistemas
educativos criados ao longo dos anos – tanto formais como informais – e a
sua capacidade de adaptação é posta em causa. Estes sistemas, apesar do
extraordinário desenvolvimento da escolarização mostraram-se, por natureza,
pouco flexíveis e estão à mercê do erro de antecipação, sobretudo quando se
trata de preparar competências para o futuro.
RP - Em que princípios teóricos o senhor se baseou para compor esse
quadro teórico?
ACGC – Eu me baseei nos quatro pilares da educação do Relatório Delors:
no ideal antropológico da educação brasileira artigo segundo da Lei 9394/96
formulado por Anísio Teixeira; e na concepção do Programa das Nações Unidas
para o Desenvolvimento (Pnud). Os quatro pilares da educação são as quatro
grandes aprendizagens: aprender a ser, aprender a conviver, aprender a fazer
e aprender a conhecer. Com base neles, eu defini quatro competências
básicas: competências pessoais, competências relacionais, competências
produtivas e competências cognitivas. Para cada grupo de competências foi
definido um conjunto de habilidades a serem dominadas pelos educandos.
RP - Em que medida pensadores da educação como Freinet, Dewey, Anísio
Teixeira estão presentes no seu pensamento e na sua pedagogia?
ACGC - Estes educadores têm algo em comum. Todos eles se inscrevem na
grande escola de pensamento da educação ativa, que é a base metodológica da
educação interdimensional. Eles vêem o educando, não como recipiente passivo
de conhecimentos, habilidades e atitudes, mas, como fonte de iniciativa
(ação), liberdade (opção) e compromisso (responsabilidade).
RP - No que a educação interdimensional difere das correntes mais em moda
na educação?
ACGC - Em vez de privilegiar apenas a dimensão do logos (racionalidade),
a educação interdimensional valoriza o eros (corporeidade), o pathos
(sentimentalidade), e o mytho (espiritualidade).
RP - Em que medida a educação interdimensional muda o modo de trabalhar
do nosso professor?
ACGC - A educação interdimensional implica para o professor mudanças
profundas de conteúdo, método e gestão. Mudanças de conteúdo (o que
ensinar), mudanças de método (como ensinar) e mudanças de gestão (como
conduzir o processo aprendizagem-ensino).
RP - O que a educação interdimensional traz de valores para nosso
estudante?
ACGC - Uma nova postura diante de si mesmo e de sua circunstância
baseada no que Erich Fromm chama de ética biofílica. Uma ética de amor, zelo
e respeito pela vida em todas as sua manifestações, que se traduz em quatro
cuidados básicos. Autocuidado (cuidar de si mesmo), altercuidado (cuidar do
outro), ecocuidado (cuidar do ambiente em que vive) e transcuidado (cuidar
dos significados, sentidos e valores que presidem a sua existência). A
educação interdimensional é, por isso mesmo, uma educação para valores.
RP - Por que a educação interdimensional anda de mãos dadas com a
tecnologia?
ACGC - Estamos vivendo dinamismos que tendem a transformar
aceleradamente o processo civilizatório como a globalização, o fim da Guerra
Fria, a desmaterialização do trabalho, a era pós-industrial, a revolução do
conhecimento. Neste novo cenário o acesso às tecnologias da comunicação e da
informação tornaram-se uma necessidade básica do ser humano.
RP - O que o senhor aconselha ao professor que está diante deste mundo
novo da informação e da comunicação e muitas vezes se vê pressionado ou
alijado?
ACGC - Aconselho aos professores serem educadores e, ao mesmo tempo,
educandos. Mestre – ensina Guimarães Rosa – é quem, de repente, aprende.
Temos de aprender todos os dias, inclusive, com nossos educandos.