Clipping
Maneira certa de agir
ENTREVISTA
Antonio Carlos Gomes da Costa
Esta entrevista ao caderno Prazer em Ajudar, o concorrido pedagogo e
escritor Antonio Carlos Gomes da Costa, de 54 anos, mineiro de Belo
Horizonte, concedeu em meio à finalização de mais um livro e ao turbilhão de
projetos que desenvolve em São Paulo, onde funciona a filial da Modus
Faciendi, sua empresa de consultoria em responsabilidade social.
Participante de importantes fóruns de líderes setoriais, como o Conselho de
Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República, onde é
conselheiro-suplente de Viviane Senna, o ex-secretário municipal de Educação
da capital mineira acumula larga experiência na formulação e avaliação de
políticas e programas sociais. São conhecimentos adquiridos ao longo de sua
carreira no Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e também como
consultor de organizações como OIT (Organização Internacional do Trabalho) e
Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura).
ESTADO DE MINAS - Qual é a missão das empresas na construção de uma
sociedade brasileira menos desigual e mais justa?
ANTONIO CARLOS GOMES DA COSTA - Nosso país, desde o ciclo do pau-brasil até
o da indústria aeroespacial e o agronegócio moderno, jamais soube equilibrar
transformação produtiva com eqüidade social. Todos os nossos ciclos
econômicos foram concentradores de riqueza e poder. Nosso desafio é
construir uma sociedade capaz de crescer com estabilidade, promovendo
eqüidade social, democracia política e sustentabilidade ambiental. As
empresas são parte deste todo. Umas, como beneficiárias. Outras, como
agentes. E, outras ainda, como vítimas desse processo. Cabe-lhes escolher
como inserir-se na co-responsabilidade pelo todo, ou seja, optar entre ser
parte do problema ou parte da superação deste desafio.
De uma forma geral, o empresariado brasileiro está consciente do seu novo
papel na sociedade?
ACGC - De uma maneira geral, ainda não. Há, no entanto, empresas que em sua
prática prefiguram tempos novos. Muitas se travestem de "socialmente
responsáveis" e procuram fazer uma coisinha aqui, outra ali, para produzir
algum conteúdo para o marketing e o balanço social. A grande maioria, no
entanto, ainda se indaga se isto tudo é apenas mais um modismo ou se é mesmo
uma tendência irreversível numa determinada direção. Estamos, a meu ver,
vivendo um momento de transição histórica. O velho paradigma morreu, mas o
novo não se implantou inteiramente. O mundo empresarial vive entre o "não
mais" de um capitalismo atrasado e o "ainda não" de uma verdadeira economia
social de mercado. A grande questão é optar entre ser socialmente
responsável ou ter alguma ação no campo social, a flor na lapela, para se
enquadrar no figurino deste início de século e de milênio.
O senhor concorda que o empresário mineiro é mais sensível aos temas
sociais por conta de algumas características que o diferenciam dos de outros
estados, como a introspecção para o negócio e a comunidade envolvida e a
despreocupação com o marketing?
ACGC - O empresário mineiro se diferencia positivamente por dois aspectos.
As sociais intramuros, ou seja, voltadas para dentro da empresa e por
aquelas ações microssociais, ou seja, desenvolvidas no entorno
sócio-familiar e comunitário da sua organização. Somos fracos, entretanto,
em fazer alianças sociais estratégicas, visando melhor aspecto macro das
políticas públicas, como, por exemplo, a qualidade da educação e da saúde.
Os paulistas, neste ponto, talvez pelo porte de suas organizações, estão na
dianteira. Minas, no entanto, me parece disposta a responder de forma
criativa, construtiva e proativa aos desafios que esta nova etapa da
evolução histórica do capitalismo nos coloca.
O senhor ocupou dentro e fora do País diversos cargos relacionados à
infância e juventude, tema recorrente para a maioria dos projetos realizados
por empresas socialmente responsáveis. Como avalia a colaboração das
empresas na condução deste tema tão importante?
ACGC - Neste aspecto, estamos melhor que outros estados. A Secretaria de
Justiça e Direitos Humanos deu um novo rosto ao atendimento aos adolescentes
em conflito com a lei, diferenciando-nos do quadro de total e irresponsável
insensibilidade existente em outras unidades federadas. Por outro lado, no
campo do terceiro setor, o Instituto Telemig Celular desenvolve um trabalho
de mobilização por direitos e desenvolvimento de capacidades nos
conselheiros municipais e tutelares, que é um exemplo para o Brasil e para o
mundo. Muitas empresas, ministérios, órgãos estaduais e prefeituras estão
envolvidos neste esforço, que tem o apoio ativo do Ministério Público.
Ainda, é claro, há muito por fazer, mas creio que estamos no caminho certo e
não estamos parados. O desafio é continuar avançando e apertar o passo. O
secretário especial de Direitos Humanos, ministro Nilmário Miranda, tem-se
mostrado disposto a favorecer a disseminação de idéias e experiências
desenvolvidas em Minas a outras unidades da Federação. Este é um sinal que
nos autoriza a olhar com esperança para o futuro.
"A principal barreira não é a falta de recursos, mas a falta, em alguns
casos, de um compromisso autêntico com a causa social"
Quais os temas de responsabilidade social devem ser considerados mais
prioritários ou importantes para as empresas exercerem sua cidadania?
ACGC - Os temas são vários e cada um deles tem seu mérito, sua relevância e
seu impacto positivo sobre o todo. Contudo, não posso deixar de destacar a
educação como eixo principal das ações voltadas para a superação das
desigualdades sociais intoleráveis. Precisamos de educação básica de
qualidade, e, ao lado disso, educação para o meio ambiente, para a saúde,
para a participação cidadã, para o consumo consciente, para o
empreendedorismo e tudo o mais. Cada empresa deve procurar identificar uma
área e uma forma de atuar, que sejam consistentes com sua visão, com sua
missão, sua estratégia e sua cultura, de modo a que sua ação social alimente
e retro-alimente o seu intangível: pessoas, conhecimento, cultura interna e
marca, que é a grande resultante dos valores e significados, que, por sua
ação socialmente responsável, ela põe para circular junto aos públicos
estratégicos para sua sobrevivência, seu crescimento e sua perpetuidade.
O senhor costuma dizer que o Brasil tem um precatório social imenso com
grande parte da população. O movimento de cidadania das empresas seria um
dos caminhos para que se dê este acerto de contas?
ACGC - Sim. Para construirmos um equilíbrio dinâmico entre o econômico e o
social, precisamos de lastrear nosso desenvolvimento num enfoque balanceado
entre transformação produtiva, eqüidade social, participação democrática e
sustentabilidade ambiental. Sem isso, como disse o governador Tancredo
Neves, "toda prosperidade será falsa". Em vez de falar de responsabilidade
social, prefiro falar de co-responsabilidade entre os três grandes setores
da vida social: as políticas públicas, o mundo empresarial e as organizações
sociais sem fins lucrativos. Sem uma aliança social verdadeiramente
estratégica a nossa imensa dívida social jamais será resgatada. Para isso,
três atitudes básicas são importantes: compromisso ético, vontade política e
competência técnica. Se faltar um desses elementos, o tripé da mudança fica
desbalanceado e não serve de suporte para a construção das soluções que a
nossa realidade, de forma tão dramática, necessita e requer.
Em seu trabalho de consultoria às empresas, quais são as maiores
barreiras que o sr. tem encontrado na implantação de projetos de
responsabilidade social?
ACGC - A principal barreira não é a falta de recursos, mas a falta, em
alguns casos, de um compromisso autêntico com a causa social. Nesses casos,
o que se busca é o marketing pelo marketing. Não me escandalizo com isso.
Como todos nós, os empresários precisam elevar seu nível de sensibilidade e
consciência a respeito dessas questões. E, quando isto ocorre, o que é muito
freqüente, as organizações procuram fazer o melhor. Os empresários, como as
políticas, refletem o todo da sociedade em que vivem e convivem. Eles não
são melhores nem piores do que o conjunto da sociedade. Não podemos nem
devemos endeusar e nem demonologizar os empresários. O bem e o mal na
sociedade brasileira estão democraticamente divididos entre esquerda e
direita, entre ricos e pobres, entre intelectuais e iletrados. Por isso,
precisamos praticar o diálogo e a tolerância mútua, se quisermos construir
mudanças verdadeiras, mudanças que vão além da retórica empresarial, da
retórica política e da retórica dos movimentos sociais.
Que conselho o senhor daria para uma empresa que quer começar a
desenvolver suas atividades de forma socialmente responsável?
ACGC - Procure conhecer-se a si mesma. Avalie seus potenciais e seus
limites. Apóie-se em suas próprias forças, começando pelos seus líderes e
colaboradores. Analise a realidade social e seu entorno. Aprenda com quem já
está fazendo. Procure estabelecer parcerias e alianças. Não tente substituir
as políticas públicas. Contribua para melhorar sua qualidade. Creio que esta
é uma boa forma de começar. O importante é não desanimar com os erros e,
como se faz tanto na vida empresarial, utilizá-los para aprender e crescer.
"Ainda há, é claro, muito por fazer, mas creio que estamos no caminho certo
e não estamos parados. O desafio é continuar avançado e apertar o passo"
Qual é, na sua opinião, o futuro para o movimento? Haverá um engajamento
maior das empresas por suas próprias forças, a auto-conscientização, ou por
pressão da sociedade?
ACGC - O futuro da co-responsabilidade social pelo todo dependerá, cada vez
mais, da demanda social, do amadurecimento ético, político e técnico dos
governos e da auto-conscientização dos líderes e colaboradores das empresas.
A mídia e os formadores de opinião têm igualmente um papel importante a
desempenhar na construção de um futuro comum capaz de assegurar, como diz
Bernardo Toro, uma vida mais digna para todos. Se o conjunto da sociedade
evoluir, o empresariado evoluirá na mesma direção. O importante, como dizia
Darcy Ribeiro, é cada segmento social responder a duas perguntas básicas:
Por que o Brasil ainda não deu certo? Que contribuição, no âmbito de minhas
forças e atribuições, posso dar para que isso ocorra?