
ANTONIO CARLOS GOMES DA COSTA
especial para a Folha de S.Paulo
Certa vez, visitei uma escola que se pretendia moderna e arrojada. O prédio
era todo cabeado. Em vez de livros, cadernos, lápis, caneta e borracha, os
alunos portavam laptops. Na sala de aula, o professor, em sua mesa, também
dispunha de um computador. E, à medida que falava em tom coloquial, sua voz
ecoava pelo ambiente. Na sua lapela, um minúsculo e poderoso microfone
permitia-lhe atingir mais de cem alunos sem forçar as cordas vocais. Atrás e
um pouco acima de sua mesa, num telão azulado, frases e imagens iam se
sobrepondo na sequência de sua exposição.
A pessoa que me pôs em contato com essa cena "futurista" observava, atenta,
a minha reação. E seu espanto foi grande com meu pouco entusiasmo diante de
tantas maravilhas pós-industriais. De pronto, observei que estávamos diante
de um cenário onde o avanço tecnológico se colocava a serviço do atraso
pedagógico. Aquilo era uma aula expositiva no sentido mais puro do termo.
Penso que essa observação não agradou muito, pois nunca mais fui chamado
para retornar àquele enclave de "modernidade" na paisagem costumeira de
nossa educação, tão defasada em relação àquela praticada nos países que já
deram certo.
"Qual seria, então, a escola do futuro?", passei a indagar-me. Em minha
visão, seria uma escola inteiramente renovada em conteúdo, método e gestão.
Uma escola e três revoluções.
A revolução de conteúdo responderia por profundas mudanças no que se ensina
e no que se aprende. A revolução de método reinventaria inteiramente o como
aprender e ensinar. E, finalmente, a revolução de gestão subverteria o uso
do espaço, do tempo, das relações entre as pessoas e do uso dos recursos
físicos, técnicos e materiais disponíveis.
Em termos de conteúdo, essa escola, muito mais do que interdisciplinar,
seria interdimensional. As diversas dimensões co-constitutivas do ser
humano: o logos (razão), o pathos (sentimento), o eros (corporeidade) e o
mythos (espiritualidade) nela seriam trabalhados de forma equilibrada e
harmônica. O esporte, as artes e o ensino religioso teriam peso idêntico ao
das ciências, das línguas e da matemática.
No que diz respeito ao método, essa escola praticaria, no dia-a-dia, uma
nova visão de homem, de mundo e de conhecimento. Uma visão de homem capaz de
fazer do educando não um mero receptáculo, mas uma fonte de iniciativa,
compromisso e liberdade. Uma visão de mundo que o impulsionasse a
relacionar-se com a família, com a comunidade, com a cidade e, virtualmente,
com o país e com o mundo. Em termos de conhecimento, teríamos uma escola em
que todos estariam voltados a aprender o aprender (autodidatismo), ensinar o
ensinar (didatismo) e conhecer o conhecer (construção de conhecimentos).
Porém, a maior das revoluções dessa escola do futuro se daria em termos de
gestão. Sua marca registrada: uma ruptura total com a sala de aula (como
espaço) e a turma (como escala). O novo espaço, um grande salão sem paredes
internas com mesas redondas de doze lugares. Onze para os alunos (um time) e
um para o docente (um técnico). O time, e não a turma, seria a unidade
básica da organização escolar. Os alunos, em vez de livros didáticos
predeterminados, teriam em mãos guias de aprendizagem e recorreriam a
terminais de computador, bibliotecas, videotecas e hemerotecas para
percorrer com êxito o itinerário formativo traçado no guia de aprendizagem.
Os professores/consultores orientariam e apoiariam, acompanhando o trabalho
do grupo e introduzindo os ajustes necessários ao alcance pleno dos
objetivos.
Nessa escola, os jovens seriam protagonistas, mas o protagonismo não se
limitaria a eles. Eles estariam cercados de professores, pais, gestores
escolares e lideranças comunitárias, cada um assumindo seu próprio papel de
ator protagônico nessa escola, que participa da vida da comunidade, e dessa
comunidade, que participa da vida da escola.
A escola protagonista é a escola necessária para que cada jovem possa
desenvolver, em sua trajetória biográfica, as promessas que trouxe consigo
ao vir a este mundo e, igualmente, a escola que o Brasil necessita e requer
para responder pró-ativamente aos imensos desafios que a história nos
coloca.
O mineiro Antonio Carlos Gomes da Costa, 54, é pedagogo, passou pela
administração da Febem, de Ouro Preto e do Estado de Minas Gerais, foi
oficial de projetos do Unicef e da OIT (Organização Internacional do
Trabalho). Trabalhou como perito no Comitê dos Direitos da Criança da ONU,
em Genebra (Suíça) e participou, no Brasil, do grupo de redação do ECA
(Estatuto da Criança e do Adolescente).
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