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O GRANDE DESAFIO

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Ricky - O que é Educação para Valores?

Antonio Carlos - É a criança vivenciar, discernir e incorporar valores na sua vida. Isso se faz pelas práticas de vivências. A educação tem que prover oportunidades para as pessoas, principalmente oportunidades de analisar situações e tomar decisões diante delas. A coisa que mais me transferiu isso foi uma música de Gilberto Gil: "Meu caminho pelo mundo eu mesmo traço / a Bahia já me deu régua e compasso". O que é "meu caminho pelo mundo"? Projeto de vida. "Eu mesmo traço": afirmação da subjetividade do sujeito. "A Bahia já me deu régua e compasso"? Quem é a Bahia? O senador da Bahia? os babalorixás da Bahia? É a educação familiar, escolar, comunitária e pela mídia. O terceiro ponto é a solidariedade intergeracional. Cada geração deve às gerações vindouras um meio ambiente igual ou melhor do que aquele recebido da geração anterior. O quarto ponto são os direitos humanos. Se você quer construir uma vida digna para todos, o melhor caminho são os direitos humanos. A maior invenção do século 20 é a Declaração dos Direitos Humanos que criou um projeto de humanidade. AQUILO QUE ESTÁ NA ENCÍCLICA DE JOÃO XXIII, "O HOMEM TODO E TODOS OS HOMENS", É A MESMA COISA DA UNIVERSALIDADE DOS DIREITOS HUMANOS. A Declaração dos Direitos Humanos é o reflexo no plano do direito laico do humanismo cristão dessa encíclica. O quinto ponto é o exercício da cidadania. NA EXPRESSÃO DA HANNAH ARENDT: O DIREITO DE TER DIREITOS E O DEVER DE TER DEVERES. O PACTO SOCIAL É ISSO. O sexto ponto é a lógica da transformação produtiva com eqüidade social, sobre a qual falamos aqui. O Brasil, do ciclo do pau brasil ao agronegócio e à Embraer, nunca foi capaz de uma transformação produtiva digna que não gerasse iniqüidade. O que é preciso para transformar as coisas que levantamos em nosso encontro aqui? Compromisso ético. É o sétimo ponto. Leonardo Boff já gerou uma comunidade de sentido no Brasil: o que tem de gente dentro de cúpula de banco e de indústria, dentro de movimento social, e que tem as coisas dele como referência... Boff instalou muitas coisas na consciência social brasileira, o que é preciso são essas coisas convergirem para um ponto. Quem sabe este grupo aqui poderá contribuir para essas coisas convergirem? O oitavo ponto é a vontade política. Conversei outro dia longamente com o professor Edgar de Assis Carvalho, ex-aluno de Darcy Ribeiro, hoje trabalhando com as idéias de Edgar Morin. Ele conta que Darcy Ribeiro dizia que o homem é homo sapiens mas também homo ludes e homo faber. O que faz o homo faber? Produz produtos agrícolas e industriais. Tudo que tem nessa casa é fruto da agricultura ou da indústria. O que mais produz? Serviços de toda a natureza, desde a educação à prostituição. Que mais? Conhecimento. Agora, o supremo da produção humana é a produção de acontecimentos. A política é a produção de acontecimentos. Lula prometeu o espetáculo do crescimento. Juscelino prometeu 50 anos em cinco. Getúlio prometeu acabar com a economia agrária exportadora. Todo movimento social que age, todo ator social que surge, se propõe a produzir acontecimento. Nosso grupo aqui está disposto a investir conhecimento, tempo, energia e sentimentos para produzir alguns acontecimentos novos. Isso é vontade política. O nono ponto é a ética da co-responsabilidade pelo todo. Não há nenhum setor da vida brasileira, nem no mundo intelectual, nem no mundo sindical, nem no empresarial, nem as políticas públicas, nenhum segmento vai conseguir virar essa página sozinho. Ou viramos a página de maneira convergente e intercomplementar e sinérgica ou cada um vai ficar levantando a página e ela voltando. A ética capaz de unir, aquela que o Brasil pode encarnar, é biofílica, do amor à vida, tendo a vida como o mais fundamental princípio. Com Saber Cuidar, do Boff, peguei quatro cuidados. Quais são os cuidados? O que é o cuidar? O primeiro é o autocuidado. O segundo é o alter-cuidado. Cuidar do outro. Quem ama, cuida. "Cuida bem de mim". O terceiro é o ecocuidado, as teias de relações que sustentam a vida. O cuidado com o ambiente, desde o banheiro da escola, o armário do menino no quarto até a Mata Atlântica. O quarto cuidado é o transcuidado. Cuidar das fontes de significado e de sentido para a vida. Sem isso a sociedade se esvai na lógica dos meios.

Boff - Dos meios e dos interesses.

Jesus - A grande importância deste encontro está na soma de nossos conhecimentos para que possamos resgatar o acúmulo dos bens sociais e propor um novo modelo de sociedade. Vamos pensar sobre tudo que falamos e num próximo encontro tentar colocar algumas propostas. Já estou deixando a minha aqui: o Cristianismo.

Ricky - Por que o Cristianismo e não o Budismo ou outra religião?

JESUS - ALGUMAS RELIGIÕES SÃO SEMELHANTES AO CRISTIANISMO, OUTRAS NÃO, COMO O JUDAÍSMO E O ISLAMISMO. TODO O PODER ACUMULADO NA HISTÓRIA, À DISPOSIÇÃO DO BUSH E DESSAS PESSOAS, ESTÁ LIGADO A POTESTADES, PODERES INCONTROLÁVEIS ACIMA DA VONTADE DE CADA UM DE NÓS. SEM REFERÊNCIA HUMANA. O MESMO ACONTECE COM OS ÁRABES E OS JUDEUS, NAS SUAS RELIGIÕES: DEUS PARA ELES NÃO TEM FORMA HUMANA. Alá e Javé não têm representação. As coisas são realizadas em nome Dele. Cristo tem a forma humana. Além disso, consagra a existência humana. A Ressurreição é a vida acima de tudo. Para mim, a maior inteligência do milênio foi Da Vinci. Quando escreveu as coisas ao contrário, para ser lido no espelho, não foi de brincadeira. O que é o Ocidente? Os gregos pegaram o alfabeto dos fenícios, colocaram as vogais e criaram a sintaxe, o pensamento lógico. Pronto. Pela primeira vez no mundo o homem passou a representar a realidade. O árabe e o hebraico não são representativos. Com o grego a lógica passou a ser o real. Tiraram as cabeças de bicho dos deuses egípcios e os projetaram numa forma humana. O que Da Vinci quis dizer é que a lógica não é o real: é o espelho do real. São Paulo escreve aos coríntios e termina: "Hoje nós vemos como um espelho. Um dia veremos como somos vistos". Esse espelho está substituído pela máquina. O computador é Aristóteles chegado ao extremo na área da tecnologia. Hegel criou o sonho supremo do Ocidente com o pensamento fechado. O computador, com seus algoritmos, também é fechado. O que precisamos, então, é resgatar essa tecnologia e transformar num bem social. Aprendi muito com os índios e me orgulho de ter nome xavante. Quando aparece um instrumento novo, como o arado, eles adoram! Ao contrário do que se imagina, os índios adoram a tecnologia! Só que a usam bem. Promovem o encontro da tecnologia com a natureza, o que para muitos é contraditório, como em Marcuse, com seu Eros e Civilização. Nós não somos dessa estirpe. O Brasil é um país com todas as condições para virar uma alternativa a um futuro nada agradável que vem aí. A sociedade eternizada no capital financeiro internacional é um Frankenstein e no dia em que ela se voltar contra seu criador isso vai desmoronar. A determinação de mudar é nossa.

A DETERMINAÇÃO DE MUDAR É NOSSA

 
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