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VIVEMOS O FINAL DE UM PERÍODO HISTÓRICO, POIS O CICLO COMEÇADO COM A
REVOLUÇÃO FRANCESA SE ESGOTOU

Ziraldo - É interessante que as pessoas aqui sejam tão diferentes e
tenham muitas coisas parecidas. Leonardo foi padre, Antonio Carlos quis ser
padre e Luiz Gonzaga começou na juventude católica. Mara, a esposa do Chico
Simeão, ia ser freira, e Antonio Carlos casou com uma ex-freira. Acho melhor
deixar que cada um se apresente.
Leonardo Boff - Sou teólogo, formado em Filosofia, mas hoje na
verdade sou um agitador cultural, ando pelo país suscitando questões e
sonhando um velho sonho franciscano de uma humanidade confraternizada entre
todas as culturas e com a natureza, com todos os irmãos e irmãs numa casa
comum sobre a qual está o arco-íris da graça divina.
Jesus Chediak - Minha formação é na área de Cultura e de Filosofia.
Trabalhei muito com Teatro. Hoje estou profundamente envolvido com um
projeto social de transformação do Brasil. Acredito que no Brasil é possível
nascer um novo paradigma de sociedade, uma vez que o paradigma que nasceu
com a Revolução Francesa está agonizante. Meu objetivo central é usar todas
as minhas possibilidades no sentido de construir esse projeto.
Chico Simeão - Sou empresário e de uns bons anos pra cá tenho
procurado revolucionar uma série de conceitos na área empresarial. Por
várias experiências no governo do estado do Paraná, quando fui secretário da
Indústria e Comércio, e depois administrando programas de responsabilidade
social, como o Bom Aluno, desenvolvi uma sensibilidade que me deixou
apavorado. Ando assustado. Enxergo dez anos à frente e vejo dois caminhos:
ser uma ilha de felicidade nesse mundo conflagrado ou viver um caos social
insuportável que nos obrigará a ir embora do país. Muitos dizem que a
primeira hipótese, a essa altura, é impossível, mas acredito que seja até de
fácil realização. Difícil é decidir realizá-la.
Antonio Carlos Gomes da Costa - Sou pedagogo, pensei em ser padre e
acabei estudando Medicina. Um dia li um capítulo de Leonardo Boff e aquilo
mudou minha vida. Quando me formei em Pedagogia, eu e minha mulher fomos
morar numa escola de meninas infratoras em Ouro Preto. A convite do
governador Tancredo Neves fui ser presidente da Febem de Minas, onde me
deparei com a dificuldade de mudar as estruturas. Fui trabalhar no Unicef
como coordenador das ações da ONU em Brasília em termos dos Direitos da
Criança. Desse esforço nasceu o Estatuto da Criança e do Adolescente, uma
lei que mobilizou os movimentos sociais, o melhor do mundo jurídico e
pessoas qualificadas da política pública. Além disto trabalhei na Unesco e
na OIT. Ajudei na elaboração da Estratégia de Combate ao Trabalho Infantil,
me meti na Conferência de Jomtien (Tailândia) - Educação para Todos, Todos
pela Educação - escrevi muitos livros e fiz muitas palestras. Agora tenho
uma empresa de consultoria chamada Modus Faciendi cuja missão é ajudar
outras organizações a cumprir sua missão. Para minha surpresa, minha
prinicipal clientela está no mundo empresarial. De modo discreto, nasce uma
plantinha no capitalismo brasileiro, uma plantinha tênue, mas nasce uma
consciência social nova no empresariado.
Luiz Gonzaga Souza Lima - Sou um sertanejo de Montes Claros (MG). Até
os 14 anos achei que minha vida seria lá, mas fui para Belo Horizonte e
entrei em contato com a JUC. Fui dirigente da JEC e convivi com a esquerda
católica brasileira. Fui diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de Minas
Gerais - na época o principal do país - e fui cassado em 64. Presenciei o
Massacre da Usiminas. Fui presidente da AP e e em 68 presidente do DCE da
Universidade Católica de Minas. Passei meses na cadeia e depois do AI-5 fui
embora pra Itália, onde mergulhei na vida acadêmica das Ciências Políticas.
Voltando ao Brasil, em 79, a PUC me seduziu com um convite para organizar um
Instituto de Relações Internacionais, que dirigi por oito anos. Em 1990 vi
que o mundo se deterioriava rapidamente e não consegui conter as grandes
dúvidas que germinavam dentro de mim sobre o que era o Brasil, um cemitério
de planos e de utopias. Larguei a universidade, larguei tudo, e fui pra onde
o Brasil começou - a aldeia Cumuruxatiba, próxima de Monte Pascoal - pra
reler tudo. Achava que poderia haver outra idéia de Brasil. E tem. Há 13
anos que faço essa viagem. Algumas coisas dessa viagem estão em Reflexões
Brasileiras, livro que deve sair este ano.
Ziraldo - Vamos começar com o Chediak, o proponente dessa série de
encontros.
JESUS - EM QUE SOCIEDADE ESTAMOS VIVENDO? É POSSÍVEL CONSTRUIR UM
PARADIGMA DE OUTRA SOCIEDADE? VIVEMOS O FINAL DE UM PERÍODO HISTÓRICO, POIS
O CICLO COMEÇADO COM A REVOLUÇÃO FRANCESA SE ESGOTOU. PARA O BRASIL, O
MOMENTO HISTÓRICO É FAVORÁVEL AO OBSERVARMOS QUE 80% DA NOSSA POPULAÇÃO ESTÁ
FORA DO SISTEMA, OU SEJA, NÃO TEM COMPROMISSOS COM ELE. Na Europa, sistema e
sociedade estão tão entrelaçados que não têm como mudar. No início de um
novo século, dentro de uma crise internacional, nós, com o olhar brasileiro,
temos uma oportunidade única de encontrar um novo modelo de sociedade.
Com a Revolução Francesa houve uma aliança do Capital com o Saber,
apropriando-se do Trabalho, e veio ao mundo a Revolução Tecnológica. É
preciso que desapropriemos do Capital o progresso construído pelo trabalho
humano.
A civilização é o produto do saber e do fazer. A experiência se aliando à
ação.
Antonio Carlos - Com o sentir também.
Jesus - O sentir já é uma celebração. O trabalho ancestral de nossos
antepassados nos deu nosso maior patrimônio: a cultura. O que aconteceu na
sociedade ocidental? Os bens sociais foram transformados em mercadoria. A
Ciência ficou na mão de uma minoria que tem um poder de compra. Mais
recentemente, a cidadania nacional cedeu à cidadania do consumo. Você tem
uma cidadania reconhecida na sociedade pelo seu poder de compra e não pela
sua historicidade. Seu carro vale mais que sua biografia. O relacionamento
que você tem com o outro vale zero. A grande empresa tomou conta do país.
Temos que demolir essa grande empresa. É ela que legaliza o crime, a
miséria, a perda.
Se não vamos construir um modelo de sociedade em cima da Razão Iluminista,
como vamos constituí-lo? Com o Cristianismo, que surgiu com uma proposta de
sociedade existencial, onde o espírito prevalece sobre as estruturas
históricas. O Cristianismo é um gancho para chegar ao povo brasileiro, um
povo profundamente cristão.
Boff - A dimensão cristã difusa na alma brasileira realmente é um
capital acumulado no nosso país. O povo brasileiro é místico, para o qual
Deus não é crença mas uma experiência. Os europeus acreditam em Deus. O
brasileiro não precisa acreditar porque sabe que Deus existe, está misturado
à sua realidade. 'Vai com Deus.' 'Fica com Deus.'
O Cristianismo é um dos fatores, entre muitos, que são alimentadores de um
novo sonho nos trópicos. Para tal, é preciso voltarmos à experiência
original de Jesus, passando por sobre as estratificações históricas que
construíram as igrejas. Os movimentos institucionalizados são uma força
presente mas com poucas capacidades de apresentar alternativas viáveis.
Minha idéia é resgatar o Paleocristianismo. Jesus não quis fundar igreja
nenhuma. Falava em 'Reino de Deus'. Como o Reino de Deus não veio, vieram as
igrejas.
Eu colocaria quatro pontos fundamentais no movimento de Jesus.
Primeiro: a proposta de uma utopia absoluta, usando a linguagem possível na
época que é a religiosa, pois não havia a codificação do discurso político.
A linguagem é religiosa mas o conteúdo é político: o Reino de Deus é o
resgate total do ser humano. As relações de dominação se transformam em
relações de fraternidade. É o resgate da benevolência com a natureza,
aplacando os ventos, saciando as fomes, ressuscitando os mortos. A isso
Jesus chama a política de Deus no mundo, de cuja mensagem é portador.
É interessante começar pela utopia, porque nenhuma sociedade se sustenta sem
uma referência utópica. A utopia é que fornece as razões para se enfrentar
as crises.
Segundo: a utopia de Jesus é tão absoluta que necessita de um sinal
antecipador para não ser um sonho vazio. O elemento onde o Cristianismo cai
ou se sustenta não é nem a Anunciação de Jesus, nem a Cruz de Jesus, é a
Ressurreição, não como milagre mas como revolução dentro da evolução. A vida
triunfando, a vida carregada de possibilidades, a vida como fenômeno
quântico plena de virtualidades. A Ressureição antecipa o fim da evolução. É
um pequeno ensaio antecipador, uma pequena miniatura, para dizer: "O fim
deste mundo é bom, não é uma catástrofe".
Desemboca na florada ridente de tudo que for verdadeiro, justo e honesto.
Os cristãos não sabiam que palava usar pra isso. Paulo usa palavras
contraditórias: "um corpo espiritual". Se é corpo, não é espírito, mas ele
une os dois pra dizer que em Jesus apareceu o Adão Novíssimo.
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