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VIVEMOS O FINAL DE UM PERÍODO HISTÓRICO, POIS O CICLO COMEÇADO COM A
REVOLUÇÃO FRANCESA SE ESGOTOU

Boff (continuação) A importância da Ressurreição é dizer qual o
sentido da vida, sempre ameaçada, com os cenários mundiais dramáticos, com
um universo terminando em entropia... ou não? O Cristianismo diz que não,
que a vida é chamada para a vida. Não como reanimação de um cadáver - isso é
lá com Lázaro, que acaba morrendo de novo - mas como a plenitude do ser,
como vida sem entropia, que não conhece mais a morte. Isso se realizou em
Jesus. Para mim o Cristianismo vale não por ser uma religião, nem por ter a
Cruz Redentora, mas por apresentar um fenômeno singular na historia das
religiões, vencendo a morte, o que é o desejo ancestral de todos os seres
humanos. Não queremos só viver muito, queremos viver sempre, eternamente.
Terceiro: O Reino de Deus é personalizado em Jesus, que antecipa a utopia.
Então quem é esse cara? É profeta, é rabino, é um mestre, é o Messias, é
filho de Davi? No fim, a Cristiologia se dá conta de que não tem jeito e o
chamam de Deus. "Humano assim, só Deus mesmo." E Jesus, como é que se
entendia a si mesmo? Se tomarmos os textos mais antigos, constatamos que se
chama de Filho. Simplesmente filho. Nem de Deus, nem do Homem: Filho. Quem
diz filho, é filho de um pai. Por isso que se refere a Deus como Abá,
'paizinho'. Com isto Jesus trouxe uma revolução no conceito de Deus que até
hoje o próprio Cristianismo não conseguiu digerir: a multiplicidade de Deus.
Ter o Pai e o Filho já é uma dualidade. E ele diz: "Só posso me sentir filho
porque sai de mim uma força que cura e que irradia e que chamo de Espírito".
O Espírito é o sopro, uma energia que está em Jesus, algo que o transcende.
Aparecem então três elementos. O Cristianismo depois inventou a palavra
'Trindade' - uma palavra agnóstica - pra poder explicar esse fenômeno. A
Trindade não é uma questão de matemática, não é um três-em-um. Santo
Agostinho especulou muito sobre isso e concluiu que a Trindade é uma
metáfora para expressar que Deus é comunhão e não solidão. Se fosse uma
dualidade geraria um narcisismo, ou a exclusão de um ou do outro. Sendo
três, há um terceiro que unifica. Deus é comunhão. O resto é pura teologia
de fundo grego. Jesus, ao sentir-se Filho, revela que Deus é Pai e que há a
força do Espírito, aquele que pairava sobre as águas, que criou o Universo,
o spiritu creator, que está em todo o Universo. Quarto: se Jesus, que é
humano como nós, se sente filho, a filiação é uma característica de todo ser
humano. Cada um é filho e filha, com a suprema dignidade do ser humano, e,
sendo assim, são irmãos e irmãs.
PARA MIM A PREGAÇÃO MAIS EXCELENTE DO
CRISTIANISMO É ANUNCIAR A HUMANIDADE, COISA QUE GANDHI FEZ COM MELHOR
SENTIDO DO QUE OS CRISTÃOS: CADA CRIATURA HUMANA É FILHO E FILHA DE DEUS E
NÃO SE PODE FAZER UMA VIOLÊNCIA A ELA. ESTE É O FUNDAMENTO ÚLTIMO DOS
DIREITOS HUMANOS. A DIGNIDADE HUMANA É INTOCÁVEL, TODO PODER TEM QUE PARAR
AÍ SENÃO TOCA O DIVINO. O SER HUMANO É DEUS POR PARTICIPAÇÃO. Precisamos
resgatar isso que era o sonho original de Jesus, fazendo com que cada um
passe do Deus-que-temos para o Deus-que-somos. Se somos judeus, cristãos,
pagãos, nada disso conta. O que conta é que cada um é filho e filha de Deus,
sem mediação nem nada. Não precisa de igreja. As igrejas não estão na origem
do Cristianismo.
Jesus - Não precisa pagar pedágio.
Boff - Marcos nunca fala em igreja. Lucas não sabe nada de igreja.
João também. Só Mateus cita as igrejas em duas passagens. Seu evangelho é
escrito pelo ano 70 e já encontrou as comunidades reunidas. A intenção de
Jesus não é criar uma religião, é criar o homem novo. Não é criar uma
igreja, é despertar a consciência nova. Perdemos essa herança. Ao invés de
Reino de Deus, pregamos Vida Eterna.
Jesus - A alma platônica.
Boff - Ao invés de Ressureição como insurreição na História, pregamos
a imortalidade da alma. Ao invés de ficarmos com a densidade do Jesus
histórico, criamos o ícone. Adoramos Jesus e não o colocamos do nosso lado
como nosso companheiro. Isto não deve ser traduzido com um discurso piedoso:
"Cada um é filho de Deus, então nos amemos..." É um discurso político: "Qual
é a mediação política que preserva essa dignidade e cria as condições para
elas se irradiarem e se universalizarem, chegando a todos os seres humanos?"
A democracia nasce disso: todo mundo é igual. Estamos todos ancorados no
coração de Deus. Isto é um oferecimento que o Cristianismo poderia dar à
globalização, junto com a tradição budista, a tibetana, a afro-brasileira,
que também são portadoras de uma mensagem sagrada de salvaguardar a
dignidade suprema do ser humano que é algo de divino. A chama sagrada que
está em nós nunca pode se apagar, e se um dia ela se apagar vamos de
encontro ao pior. Vamos ao abismo.
Ziraldo - A nossa proposta então traz como embasamento a relação
humana.
Boff - E inclusive no discurso secular. Não precisa ser o religioso.
Ziraldo - Mas imagine se pudéssemos construir relações de trabalho e
de convívio baseados nesse princípio!
Chico - E resgatando uma utopia, porque hoje o que existe é uma crise
de utopias.
Jesus - A pós-modernidade é a negação das utopias.
Luiz Gonzaga - O pós-moderno é uma petulância da modernidade de
querer inventar a era que vem depois dela mesma
Jesus - Sabe qual deveria ser o verdadeiro ato profundo da
pós-modernidade? A ressurreição.
Boff - A ressurreição do corpo.
Jesus - Claro, porque a da alma é coisa de Platão. Essa nossa Pátria
também é coisa de Platão, é uma pátria metafísica. O Ser e o Nada, de
Sartre, ilustra isso bem: o homem, quando viu a morte na existência, se
refugiou no Nada. E no Nada criou os mitos civilizatórios. E dos mitos
civilizatórios veio a Pátria metafísica, essa para a qual batemos
continência. Uma pátria ilusória, idealista, ocidental.
Ziraldo - Vou pedir agora ao Luiz Gonzaga pra nos contar um pouco de
suas reflexões em 13 anos de leitura e convívio com o mato.
Luiz Gonzaga - A primeira coisa que gostaria de falar é que o Brasil
é diferente daquilo que nos ensinaram. Nasceu como um ato de política
internacional no final do século 15. Não existia mundo mundial. Hoje a
palavra 'mundo' nos lembra a foto da Terra vista do espaço na qual Caetano
baseou uma música, mas em 1450 significava 'tudo aquilo que existe mas
ninguém conhece' ou 'aquilo perto da vida de cada um'. O mundo era alguns
subsistemas locais. Os islâmicos e os chineses eram os povos mais poderosos
e mais bem preparados militarmente. A Europa era constituída de povos
ignorantes vivendo a crise do feudalismo, brigando uns contra os outros. Da
Europa brotou um povo que acreditava ser o homem o centro das coisas e que o
mundo podia ser mexido, examinado, olhado e dessacralizado. Um povo que
introduziu o individualismo: todo o Cosmo, inclusive a vida, é uma matéria
amorfa para o sucesso pessoal de cada um. Um povo que queria transformar
tudo em mercadoria. Para esse povo, a vida deve ser organizado em função da
razão analítica.
AS COISAS QUE ESTAVAM DEBAIXO DO CÉU ERAM AS MESMAS.
TUDO, OS OBJETOS, AS PESSOAS. O QUE FIZERAM FOI REORGANIZAR ISSO DE UM OUTRO
MODO. CONSTRUIRAM UM OUTRO SOFTWARE SOCIAL. Foi esse povo que acreditou
que poderiam navegar e atravessar o mundo que era redondo. Foram
experimentar. Puderam experimentar porque os comerciantes europeus estavam
morrendo de medo de perder tudo pros islâmicos, que só não invadiram a
Europa inteira porque não quiseram. Aliás, me dá vontade de aprender árabe
pra descobrir porque não concluíram essa invasão. Foi esse povo novo que
inventou o mundo mundial. A saída dele do feudalismo tem coisas
emocionantes. Afirmar que o homem era o centro foi tão significativo que
Michelangelo resolveu fazer uma estátua do anão que lutou contra o gigante.
O anão tem 4,36m de altura, olhando firme pra frente, orgulhoso, seguro.
Francisco, em Assisi, também entendeu esse novo mundo e propôs um modelo de
convivencialidade, mas não houve diálogo entre a proposta dele e a da
vanguarda moderna. O diálogo transcorreu mais entre a vanguarda moderna e o
atraso da Igreja com seus processos. A dominação que esse povo realizava era
através de conquistas, trocas, tributos, alianças, mas aqui não puderam
fazer nada disso. O Brasil era um enigma pra eles. Não tinham como saquear.
Ficaram 32 anos pensando no que iam fazer com o Brasil. São os anos mais
importantes para estudarmos mas as coisas dessa época sumiram. Finalmente,
depois de muito pensar, concluíram que poderiam estabelecer aqui as suas
empresas. As empresas instaladas aqui produziriam coisas para o mundo e
dariam dinheiro pra eles. O Brasil foi fundado como empresa. Com o Brasil,
foi criado o mercado mundial. A criação do engenho de açúcar foi um avanço
na agroindústria da época. Taí Celso Furtado escrevendo que o mercado
mundial foi criado com o açúcar brasileiro. Não existia a capacidade de
distribuir aquelas milhares de toneladas de mercadoria, não havia ainda essa
escala, então criam um mundo articulado para isso. O Brasil era uma holding
com capital dos Países Baixos, gestão dos portugueses, mão-de-obra da
África, um produto do Oriente e tecnologia de refinamento do Mediterrâneo.
Fomos, e somos, uma empresa do capitalismo mundial. Havia esse grupinho de
invasores e o resto, que não eram seres, mas propriedade deles. Eles tinham
propriedade sobre as terras, as plantas, os bichos e os homens. Nesse
sentido, todos viraram sem-terra. Dá para chamar isso de sociedade? Não.
Somos uma empresa e não uma sociedade. Um povo vivendo num território
constitui uma sociedade. O índio, que vivia aqui, não teve o reconhecimento
da propriedade. Hoje, 500 anos depois, estão querendo demarcar um pedacinho
do território para os índios viveram mas as pessoas acham que isso é muito.
A empresa absorveu parte da população e os outros vivem aí até hoje ninguém
sabe como. Na Europa, havia ainda o feudalismo. O Estado dirigia a economia,
o clero, a política militar. Aqui, não, o Estado serve à empresa. O êxito da
colonização era servir bem à empresa. A primeira coisa que eu queria falar é
isso: somos uma empresa. A segunda: somos uma empresa moderna. Se lermos
Weber veremos que a modernidade é isso: os valores de tudo ser mercadoria,
produzir visando ao lucro. Fomos fundados pelas vanguardas modernas. Não é
verdade aquilo que nos falaram sobre a modernidade surgir na Europa e se
irradiar para o mundo. Ao contrário, a modernidade nasceu na periferia e
depois é que os outros lugares passaram a produzir mercadorias para vender
aos portugueses, aos espanhóis, aos ingleses e aos holandeses, mudando toda
a estrutura social. Alterou até a Corte Japonesa! O mundo mundial moderno
entrou em todas as sociedades. A minoria que estava dentro da empresa passou
a se autodefinir como sociedade. Ora, a sociedade humana são todos. Se dois
terços estão fora, dizer que os outros - um terço - são a sociedade é um
equivoco que só pode ser sustentado pela nossa colonização cultural. Nós nos
chamamos como eles nos chamavam, mas se formos ver o Brasil como nós somos,
veremos que não formamos uma sociedade. Fomos fundados como uma empresa e
somos uma empresa. Com o dinheiro da modernidade, vindo da periferia e
acumulado no centro, é que os europeus vão fazer sua revolução pra tentar
implantar lá o moderno. Leiam o capítulo 24 do Marx, sobre acumulação
primitiva, falando que os ingleses tentaram levar a escravidão pra
Inglaterra! Isso não é o que ensinaram, a modernidade não partiu do centro
pra periferia.
FIZ UM ESTUDO PROFUNDO SOBRE A REVOLUÇÃO FRANCESA. SE OS
CONCEITOS DA REVOLUÇÃO FRANCESA ERAM TÃO FUNDAMENTAIS, DEVERIAM VALER TAMBÉM
PARA A PERIFERIA. NÃO, FOI UMA DECEPÇÃO PROFUNDA. A REVOLUÇÃO FRANCESA FOI
FEITA PELO PESSOAL QUE TINHA COLÔNIAS E ESCRAVOS. FALA EM LIBERDADE,
IGUALDADE E FRATERNIDADE MAS NÃO TOCAM NA COLONIZAÇÃO NEM NA ESCRAVIDÃO. É
COISA DELES LÁ.
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