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VIVEMOS O FINAL DE UM PERÍODO HISTÓRICO, POIS O CICLO COMEÇADO COM A
REVOLUÇÃO FRANCESA SE ESGOTOU

Ricky
Goodwin - A Revolução Americana também: começa dizendo que todos os
homens foram criados iguais mas foi feita por escravocratas.
Luiz Gonzaga - Nós não temos então que nos apaixonar pela Revolução
Francesa porque já éramos modernos antes deles.
Ziraldo - Fazer democracia tendo seus escravos é mole. É a democracia
do Platão. Mole!
Luiz Gonzaga - Historicamente, nesses 500 anos, tivemos duas diretrizes
básicas. Uma é pedir aos outros para fazerem mais empresas até incorporar
todo mundo. "Invistam aqui! Nós damos tudo!" Não conseguimos. Em 500 anos
eles não quiseram fazer aqui empresas em número suficiente para incorporar
toda a população. Graças a Deus, senão teriam desmanchado esse território
maravilhoso e privilegiado que temos. Outro caminho, o da vertente marxista,
dizia: "Vamos desenvolver as forças produtivas dessa empresa porque assim
ela se expande pra todo mundo". Isso nunca se deu e não se dará. Mas a
empresa sempre vai muito bem. O Brasil já foi o primeiro PIB do mundo e está
sempre entre os dez primeiros. Estamos há 20 anos sem crescer e ainda
estamos entre os 12 primeiros. Nós éramos riquíssimos enquanto os EUA eram
uma colônia pobre e miserável. Um caminho que nós temos é o de fundar uma
sociedade. Para isso, temos nosso território, nossa população, uma herança
de infra-estrutura e de um parque industrial.
Jesus - Perfeito: uma sociedade que ainda não foi fundada.
Luiz Gonzaga - Nunca fomos uma sociedade. Tudo que foi construído
aqui foi mercadoria para vender lá pra fora. Tudo! Administrado pelos
outros. Mas tem uma coisa que foi produzida aqui só para o nosso prazer,
para nossa felicidade, para nosso deleite: a nossa cultura. Nossa cultura
nasceu com os primeiros que chegaram, antes dessa invasão revolucionária de
1532. Darcy Ribeiro conta isso. Os europeus trabalhavam aqui mas moravam com
as índias e acabava nem sendo índio nem europeu. O modo de eles resolverem
os problemas - como se alimentavam, como usavam os rios, como usavam a
produção - é o modelo pra todos nós. Tentaram nos lusitanizar mas essa
cultura, que nasce de um encontro mundial, incorporando depois o africano,
virou um ser social poderoso que seduz e faz todo o sistema se apaixonar por
ele. A cultura consegue atravessar os labirintos escuros da exclusão, da
escravidão, dos patrões e dos senhores. Nossa cultura é o único lugar de
onde a gente vê o Brasil mesmo. O povo era analfabeto, mas ia ao teatro ver
Castro Alves declamar e pegava ele nos ombros e carregava ele pra rua! Nossa
cultura, junto com nosso território, nosso povo e essa infra, é a força
maior que temos. É plural, é planetária, é de três lugares do planeta, tem
muitas coisas de unanimidades e muitas coisas de divergências. Não temos uma
teoria pra estudar essa cultura, a que usamos foi desenvolvida na Europa e
nos EUA, com a unidade étnica, onde os valores estão em harmonia e, se
desarmonizar alguma coisa, eles acham que cria um estado de anomia.
Fred Rosário - Nessa mesa mesmo, cada um de nós tem uma descendência
diferente.
Luiz Gonzaga - Nós não somos de maneiras iguais. Às vezes uma pessoa
tem mais do índio, outro do negro, e outro do europeu. É um modo de ser
dinâmico. Algumas pessoas tem tão mais do europeu que não gostam do Brasil,
né, mas mesmo assim não resistem a ver uma escola sair, aquela camisa
amarela em campo, mesmo os mais colonizados têm um momentinho de
unanimidade. Essa é uma cultura feita só para nós. Agora tem um pessoal
querendo industrializá-la, fazer produtos para poder vender a cultura
brasileira e eles se darem bem. Tá legal, ela precisa se estruturar, se
produzir, mas estão transformando em mercadoria a única coisa que foi feita
só para o nosso prazer. O fato de ela ser plural faz com que nossa cultura
seja dentro dela mesmo democrática. É por isso que esse negócio de música
negra não pega no Brasil. Toda música é negra. Toda literatura é índia e é
européia. Nós somos os herdeiros da vanguarda moderna que criou o mundo
mundial. As coisas deles são nossas.
NEM EXISTE ANTROPOFAGIA, O QUE
EXISTE É IDENTIFICAÇÃO: ELES SOU EU. E MEUS PATAXÓS DE CUMURUXATIBA SOU EU
TAMBÉM. OS NEGROS DO QUILOMBO SOU EU TAMBÉM. A DIFERENÇA ENTRE NÓS E OS
OUTROS É QUE EU SOU MUITOS. ONTEM VI UMA ENTREVISTA DO EDU LOBO NO GLOBONEWS
ONDE ELE TERMINA DIZENDO: "ESTÁ TUDO AQUI. AQUI TEM TUDO". SOMOS O ÚNICO
PAÍS COM UMA CULTURA PLANETÁRIA. SE TIVER QUE EXISTIR UMA CULTURA
GLOBALIZADA VAI SER MUITO PARECIDA COM A CULTURA BRASILEIRA, QUE HOJE OCUPA
UM ESPAÇO NO MUNDO MUITO MAIOR DO QUE A ECONOMIA BRASILEIRA. Tem um
caralhão de cidades no Japão com escolas de samba. Na Alemanha, na Suécia, o
pessoal sai daqui pra fazer workshop sobre música. Nossa alma é plural.
Boff - E sincrética.
Antonio Carlos - O Brasil já nasceu globalizado. Nasceu num momento
em que o mundo descobre sua redondeza e que Fernando Pessoa descreve: "E a
orla branca foi de ilha em continente / vagou / correu até o fim do mundo /
E viu-se a Terra inteira de repente / surgir redonda do azul profundo". O
Brasil faz parte dessa descoberta. Padre Vaz, um professor lá de Minas,
falava que quando a Macedônia avançou pro Oriente criando o Mundo Helenista
já era a primeira globalização. Ali tinha terras da Europa, da Ásia e da
África, com várias parte do mundo sob o mesmo comando. Depois vieram os
romanos com o Mare Nostrum, transformando o Mediterrâneo num lago romano.
Ele fala de uma outra globalização, que é o Cristianismo: "Ide e ensinai até
os confins do mundo". Outro movimento globalizante são as grandes navegações
do mercantilismo, onde o Brasil nasceu. Se há uma coisa que não é estranha
ao Brasil é a globalização.
Joseli Mara - Eu queria ter ouvido tudo isso quando comecei a ler.
Hoje saberia o que era eu. Isso é a verdadeira História e Geografia do
Brasil.
Ziraldo - Essa reunião pretende ser propositiva, mas como é a
primeira de uma série, tô vendo que nosso manifesto vai demorar pra sair,
porque antes tem todo esse embasamento. Primeiro, com o Boff, identificamos
o homem que queremos. Em seguida, com Luiz Gonzaga, botamos esse homem no
Brasil, um país que nunca foi uma sociedade.
Luiz Gonzaga - O caminho, Ziraldo, é a refundação do Brasil.
Jesus - Aí surge a pergunta fundamental: como?
Ziraldo - Mas antes de responder a isso vamos ouvir o Antonio Carlos.
Antonio Carlos - Vejo a História pela ótica do educador. Qualquer
construção pedagógica parte da pergunta: que tipo de homem queremos formar?
Para que sociedade queremos contribuir com a formação deste homem? Do ponto
de vista da Educação, grande parte do povo brasileiro sempre foi excluído. O
mundo espanhol em Santo Domingo já tinha universidade no século 16. O Brasil
vai criar uma universidade no Centenário da Independencia (1922) pra receber
o Rei da Bélgica e dar a ele um título de Doutor Honoris Causa. A
universidade surge no Brasil para cumprir um item cerimonial.
Jesus - O México publicou seu primeiro livro em 1524. O Brasil, no
século 19.
Ricky - Foi preciso o Rei de Portugal vir ao Brasil para que aqui
houvesse gráficas.
Antonio Carlos - A primeira forja que houve em Minas foi destruída
pelo Império porque aqui não poderia haver forjas. Pensando no ideal de
construção de homem brasileiro, dentro da tradição da cultura ocidental mas
com uma integração com a cultura negra e indígena, o que me chama a atenção
é como criamos uma escola no Brasil que nunca foi para todos. Todas as vezes
em que faz um movimento em direção a ser para todos ela piora tremendamente.
As pessoas antigas falam "no meu tempo a escola pública era boa", mas tinha
pouca gente dentro da escola. No dia em que ela se torna mais universal se
torna ruim. Nos primeiros 400 anos da história brasileira a Educação esteve
nas mãos da Igreja, uma igreja unida ao Estado, da qual só vai se separar
com a Proclamação da República.
Luiz Gonzaga - Unida e subordinada.
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