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VIVEMOS O FINAL DE UM PERÍODO HISTÓRICO, POIS O CICLO COMEÇADO COM A
REVOLUÇÃO FRANCESA SE ESGOTOU

Antonio
Carlos - Se pegarmos as instituições de atendimento social ao nosso povo
veremos que a principal foi a Santa Casa de Misericórdia e depois foram as
congregações e as ordens. As confrarias religiosas atendiam ao povo
brasileiro em suas necessidades. Hoje existe a retórica da responsabilidade
social das empresas mas naquela época o homem que ficasse rico - com
mineração, agricultura ou pecuária - e que quisesse um título para sua
ascensão social, tinha como um dos caminhos entrar para a mesa-diretora de
uma Santa Casa, contribuindo com seu dinheiro. Sendo um homem de prol da
sociedade conseguia ser um Barão ou um Duque.
O Estado brasileiro não criou um ramo social até a Proclamação da República,
permanecendo o modelo colonial durante o Brasil Independente. Com a
Proclamação da República, criou-se um colégio público, o Pedro II, que saía
pelo Brasil validando como banca os estudos dos colégios católicos. As lutas
sociais no Brasil - no sentido moderno do termo - começaram a surgir em São
Paulo, onde havia três categorias de trabalhadores essenciais para a
economia cafeeira: os portuários de Santos, os ferroviários da
Santos-Jundiaí e os bancários. Sem esses trabalhadores a jugular da economia
brasileira agrária e exportadora, o café, não funcionava. O
anarco-sindicalismo, trazido pelos trabalhadores europeus, fomentou as
primeiras lutas sociais contemporâneas, e eles foram os primeiros
trabalhadores a conquistarem suas caixas de aposentadoria e de pensão. A
República Velha tem dois homens fundamentais: Oswaldo Cruz, trazendo e
adaptando a tecnologia do Instituto Pasteur, transformando o Brasil num país
de ponta na medicina tropical; e Elói Chaves, com seu esforço pela criação
das caixas de aposentadoria e pensão. É o período proto do primeiro ensaio
brasileiro a produzir conquistas sociais para a população. O ramo social do
Estado brasileiro vai se constituir realmente a partir da Revolução de 1930.
Os direitos sociais se expandem sob um Estado autoritário. O presidente
Vargas, com seu longo consulado de 30 a 45, faz muitos avanços de conquistas
sociais e muitos retrocessos das conquistas democráticas. O pacto de Vargas
começa a se romper nos anos 60, não dando mais conta das contradições
sociais. A corda arrebenta para o lado mais fraco e vem os militares com o
desenvolvimentismo iniciado por Juscelino, porém agora de maneira mais
autoritária. Vem a crise do petróleo e as duas décadas sem crescimento. Qual
é o desafio do Brasil hoje? Fernando Henrique e Lula, todos os dois, foram
chamados para reunião da Terceira Via na Inglaterra. A Terceira Via surgiu
em países que tem de um lado o bem-estar social europeu -, a maior máquina
de produzir bem-estar e dignididade já inventada pela Humanidade - e de
outro lado as idéias de Reagan e Thatcher de um Estado neoliberal mínimo. O
pensamento da Terceira Via é o de tentar diminuir o tamanho do Estado,
tornando-o mais leve para a economia - pôr o Estado num spa - mas sem perder
os direitos sociais básicos. Tony Blair tenta fazer essa mágica com o
auxílio de Anthony Giddons. Fico pensando num presidente brasileiro dentro
dessas alternativas. Temos uma agenda de cinco séculos que não foi cumprida,
cheia de dependências, de dever de casa não feita, de dívidas, de notas a
pagar. O Brasil tem um precatório social imenso com grande parte da
população. Temos que fazer então um movimento que tenho chamado de Quarta
Via. O presidente do Brasil tem que responder à agenda da inserção
competitiva na economia globalizada, colocada pelos novos tempos, atraindo
os investimentos, melhorando os fundamentos da economia, mas existe uma
agenda anterior: como preservar as conquistas do Estado em bem-estar social
numa época em que este está sendo visto pelo espelho retrovisor?
NOSSO
DESAFIO NÃO É A PRIMEIRA, A SEGUNDA E NEM A TERCEIRA VIA, MAS UMA QUARTA VIA
QUE FAÇA UM ACERTO DE CONTAS COM O PASSADO. O TRABALHO ESCRAVO NA FAZENDA DO
DONO DA GOL É A AGENDA DO SÉCULO 19 QUE AINDA ESTÁ PENDENTE. É O DESAFIO COM
O QUAL SE DEFRONTA TAMBÉM A ÁFRICA DO SUL E TODA A AMÉRICA LATINA. (VER BOX)
Ziraldo - Na vinda para cá eu vinha falando no carro sobre o poder da
palavra. Uma palavra apenas pode transformar uma sociedade. Assisti ao
advento na nossa conversa diária da palavra 'comunidade'. A compreensão dos
interessados do que significa comunidade mudou a face desse país. Devemos
muito a Leci Brandão, que só fala em comunidade: "Vim aqui em nome da
comunidade... Vou cantar em nome da comunidade..." Hoje quando se diz "a
comunidade está convocando" todo mundo sabe do que se trata. Quando dizem "a
comunidade é que quis assim" a discussão acaba. Falando em "atender à
comunidade", ficou mais fácil fazer trabalho em favela ou no campo.
Antonio Carlos - Lá em Minas se usa muito comunidade como o lugar de
onde a gente veio. "De onde você é?" "Da comunidade de Montes Claros." E
existe a comunidade como o lugar onde a gente está vivendo atualmente. E tem
a comunidade de sentido, que é aquela que responde à pergunta "para onde
vamos?" "Para onde queremos apontar?" É a comunidade do futuro, da utopia.
Essa comunidade é desterritorializada, cada um está num lugar mas
compartilhamos um rumo.
ZIRALDO - NÓS AQUI SOMOS UMA COMUNIDADE DE SENTIDO. TEMOS A POSSIBILIDADE
DE ESCREVER LIVROS, PUBLICAR JORNAIS, FALAR PARA OS GENTIOS COMO FAZ O BOFF.
MAS EU FALAVA SOBRE A FORÇA DA PALAVRA USANDO COMO EXEMPLO 'COMUNIDADE'.
INFELIZMENTE, NÃO HOUVE JEITO DE O HOMEM COMUM INCORPORAR À SUA EXISTENCIA O
SIGNIFICADO AMPLO DA PALAVRA 'CIDADANIA'. Ele sabe que comunidade é "nós
todos juntos somos mais fortes do que eu sozinho". E que "a vontade da
maioria é mais importante do que a minha vontade". Comunidade contém essas
coisas todas introjetadas. Agora, não sabe o que é cidadão. A palavra
cidadania é usada com a mesma leviandade com que se usa a palavra amor.
Enquanto a verdadeira cidadania não for introjetada na alma do brasileiro
não se vai poder avançar na compreensão do conjunto dos direitos e também
dos deveres. (desenha o símbolo do yin e yang) Isso é cidadania: desse lado
os direitos e desse lado os deveres. O debate está sendo bem conduzido. A
última fala vai ser do empresário - a classe que foi colocada na parede
nesta reunião - mas de um empresário com uma consciência que todos os
empresários brasileiros deveriam ter. No dia em que esse discurso aqui fizer
sentido pro empresariado brasileiro estamos salvos. Então, Chico, plantaram
pra você!
Chico - Ouvir essa conversa aqui dá pra fazer a vida inteira. Tivemos
várias formas de abordagem e são todas convergentes, inclusive quanto ao
grande patrimônio dessa nação, que é ele ser mestiço.
Ziraldo - Mas o empresário é um agente. Como colocar a conversa em
ação?
Ricky - Ziraldo é uma pessoa prática e está agoniado querendo botar
logo a mão-na-massa pra construir a nova sociedade, mas a construção começa
pelo alicerce, claro. Neste debate estamos moldando nosso alicerce utópico.
Chico - Precisamos começar assim. Sem haver teorização ninguém faz
nada. Mas vê-se as pessoas ficando na discussão sem realizar as tarefas. A
energia das pessoas se perde. Como materializar aquilo em que estamos de
acordo? Me encanto com o embasamento que foi dado aqui mas eu não saberia
como fazer isso. Meu discurso é prático. Então, nossa união é ideal e espero
que se consolide de forma energética. Sou grato a Deus de não ter nascido em
berço de ouro. É mais difícil o fortalecimento na fartura do que na
dificuldade. Nasci numa família com um grande patrimônio de caráter. Gosto
de trabalhar, trabalho 12 horas por dia com vibração, mas quando comecei,
com 10 anos, não gostava. Sou um puta de um cara bem-sucedido, sempre ganhei
o que quis ganhar, meus patrões me trataram bem, não posso me queixar. Mas
por que eu não gostava de trabalhar? O trabalho é um monte de movimentos
repetitivos. Criança, jovem, gosta é de usar o cérebro, de voar, de pensar,
enquanto o empregado é obrigado a fazer o que lhe dão. É impossível o
sujeito sem empolgação ficar concentrado oito horas por dia. Começa a pensar
na namorada, num filme, e daí se acidenta. A sociedade cria máquinas que não
permitem a distração, com um movimento inadequado elas travam. A
globalização da economia é comunicação. O melhor exemplo disso é que milhões
de pessoas no mundo inteiro assistiram ao segundo avião bater nas Torres
Gêmeas. Dezoito minutos depois do primeiro. A comunicação é muito veloz. Há
50 anos, um país poderia passar meses sem tomar conhecimento de uma notícia
como essa. Essa comunicação acontece também na tecnologia. Uma televisão
passa a ser feita de uma maneira em Singapura e na semana seguinte está
sendo feita assim no Canadá. Isso exige uma qualificação cada vez maior das
pessoas, causando um estresse danado. Em contrapartida, quando você coloca
um bom operário que saiba operar máquinas automatizadas e computadorizadas
ele rouba o emprego de 50 pessoas. Aumentaram a produtividade e a qualidade
do produto, houve uma redução dos custos, mas não houve divisão desses
ganhos.
Luiz Gonzaga - Pelo contrário, se concentraram mais ainda.
Chico - O desemprego fez crescer o fosso que separa 5 bilhões de
excluídos do 1 bilhão que consome. Não existem volume/horas de trabalho pra
repartir entre todos que precisam trabalhar. Se uma tarefa era realizada em
8 milhões de horas, passou a ser realizada em 6 milhões de horas, sendo que
há o mesmo numero de pessoas pra trabalhar.
Ricky - O mesmo não, o volume da força de trabalho é cada vez maior.
CHICO - ALGUÉM VAI TER QUE FICAR DESEMPREGADO. NUM PAÍS DE TERCEIRO MUNDO
COMO O NOSSO A SITUAÇÃO É MUITO PIOR. O DESEMPREGO DE 15% NO BRASIL É O
MESMO QUE SERIA UM DESEMPREGO DE 50% NA FRANÇA. Aqui, o desempregado é
um pária na sociedade, os próprios pobres o desprezam, não querem nem que vá
tomar cerveja com eles porque não paga a sua parte. Não existe Previdência,
nada que o previna. Daí vem a colocação do Luiz Gonzaga de que o país tem
que ser uma sociedade nova que tenha a multiplicidade das nossas sociedades
e de nossas empresas. O Brasil está fundamentado em empresas e essas é que
devem ter uma reorientação. Estou absolutamente convencido de que essa é a
vez do empresário. Sua participação é indelegável: ou toma consciência e
aproveita a oportunidade de comprar felicidade a um preço mais barato ou não
terá essa oportunidade de novo. Ele tem que ter uma empresa moderna. O que é
uma empresa moderna? Aquela que não pertence só ao empresário ou ao
acionista mas à sociedade brasileira. Pertence ao empregado, ao prefeito da
cidade, à Câmara Municipal, às ONGs de defesa do meio-ambiente, à Saúde
Pública, ao grupo de escoteiros, à cidadania. Ela tem que dar satisfações à
sociedade. O empresário gerencia aquele bem. Como maior teórico no processo,
ele pode usufruir mais da empresa, mas tem que administrar isso com a
consciência de que a empresa não é dele, de que é preciso ter democracia,
sendo necessário o talento de sublevar os empregados convencendo-os de que
seu dever é fazer valer seus direitos de exigir do dono uma boa gerência,
criticando, participando, para que o crescimento da empresa e seus
benefícios sejam repartidos. O empregado é sócio da empresa com um capital
que é o trabalho.
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