Clipping
VIVEMOS O FINAL DE UM PERÍODO HISTÓRICO, POIS O CICLO COMEÇADO COM A
REVOLUÇÃO FRANCESA SE ESGOTOU

Ziraldo
- Mas é preciso o embasamento pro cara poder passar a ter essa postura. Se
não tiver o discurso que estamos apresentando aqui vai pensar que você é
doido. "O Chico pirou!"
Chico - Já acham que eu pirei.
Mara - Mas você tem uma empresa assim. Tem como provar que não é
doido.
Ziraldo - Eu sou testemunha disso. A fábrica dele fica no meio de um jardim,
com água, cachoeirinha, com aléias pros empregados passearem. É a fábrica
mais limpa que já vi e não tem faxineiro: cada empregado é responsável pela
limpeza de seu local de trabalho. E o chão é um espelho! Ele aluga uns
armazéns. Tem mais flores em volta dos armazéns do que em qualquer
residência de Curitiba. Ele já intuiu esse discurso. Agora temos que
multiplicá-lo. Os estados estão falidos. Quem comanda o mundo hoje é a
categoria dos empresários. Logo, são eles que têm que tomar consciência de
que o futuro do mundo está nas mãos deles.
Boff - São as corporações.
Ziraldo - As grandes corporações já sacaram isso, mas o empresário
brasileiro não.
Chico - As grandes corporações não têm alma, não têm compromisso,
vivem todos acuados.
Boff - Mas hoje quem mais me convida pra falar são empresários, que
estão despertando pro tema da responsabilidade social, sentindo que não
podem ficar fora disso porque aí perdem a corrida mundial. Estão despertando
para o fato de que a empresa tem que ser pensada no conjunto da sociedade e
não como algo só deles. Há o emergir de uma consciência nova, ainda
incipiente mas muito interessante. Os empresários me convidam para falar
sobre ética, sobre espiritualidade. É que a grande maioria não sabe como
fazer, como começar.
Chico - Qual a grande obrigação do empresário moderno? O pai de
família substituiu Deus na administração. Quando você pede algo a Deus, ele
não te dá aquilo que pediu mas aquilo de que precisa. Você pede férias e te
dá serviço. O pai faz o quê? A criança está com preguiça de levantar, ou
machucou no futebol e não quer ir pra escola. O pai pega pelos cabelos,
chuta para fora de casa e põe para estudar. Não dá o que o filho quer mas o
que precisa. A empresa tem que ser um pai que cuida dos filhos, que se
apaixona pelos filhos, e que dá a eles o que precisam. Pode não saber do que
precisam, pode ouvir os filhos para descobrir direito, mas tem que fazer
algo pelos filhos. Nossa empresa tem programa médico e programa de dentista,
inclusive com medicina preventiva. Os valores que tem a receber - como cesta
básica - ficam bloqueados até que o empregado traga o comprovante de que
levou a família no médico. Ele recebe quando o dentista assina que ele e os
dependentes estão com os dentes em ordem. Eles ficam bravos, mas levam a
família.
Ziraldo - Ele tem uma academia de ginástica dentro da fábrica!
CHICO - TEMOS UM PROGRAMA ONDE O CARA FAZ GINÁSTICA COM PERSONAL-TRAINER
E GANHA CINCO REAIS POR SESSÃO DE GINÁSTICA. E SE ELE NÃO FALTAR NENHUM DIA
NO MÊS GANHA MAIS 100% SOBRE ESSE VALOR. O EMPREGADO NÃO É OBRIGADO A FAZER
GINÁSTICA, MAS PODE GANHAR 130 REAIS POR MÊS, POR EXEMPLO, PARA SE
AUTOBENEFICAR. PARA UMA PESSOA QUE GANHA 450 REAIS POR MÊS, RECEBER MAIS
130... OS EMPREGADOS TODOS ANDAM EMPINADINHOS, TÊM POSTURA, FLEXIBILIDADE E
FORÇA.
Ziraldo - E a produtividade aumentou em quanto?
Chico - 37%. É um belíssimo de um investimento.
Ziraldo - Claro, você tem os empregados todos com saúde.
Chico - No nosso ramo, somos a empresa mais produtiva do mundo
inteiro. Nós últimos 12 meses, quando todo mundo demitiu, nós admitimos um
turno a cada 120 dias. Do ano passado para esse admitimos 230 funcionários.
Zezé Sack - Quantos empregados são ao todo?
Chico - São 425. Com uma produtividade dessas você fica numa situação
de mercado fantástica. Nós apostamos que os empregados nos dariam uma
produtividade de 10%. Conversei com eles, pedi, e nos deram. "Vocês foram
contratados para trabalhar oito horas por dia mas não vai dar." Acostumados
a tratar com empresário, pensaram que vinha uma sacanagem aí. Mas falei:
"Vocês vão trabalhar só seis horas". Aí é que desesperaram. Continuei: "Mas
vão ganhar salário de oito. No salário ninguem mexe. Mas eu quero algo em
troca: que vocês produzam mais. Confio em vocês e vou arriscar que vocês
conseguem produzir 10% a mais". E de fato cumpriram. Temos uma experiência
de mais de três anos com esse sistema.
Ziraldo - Eles trabalham seis horas por dia, recebem por oito, e
aumentaram a produtividade em 10%?
Chico - Dez por cento foi o que pedi. Aumentaram em 37%!
Ziraldo - Trabalhando menos?
Chico - O que aumentou foi a produtividade da fábrica como um todo. O
volume de horas de trabalho continuou o mesmo, porque agora tenho quatro
turnos de seis horas ao invés de três turnos de oito horas. Contratei mais
um turno de empregados.
Jesus - Você fez o contrário do que todo mundo está fazendo.
Chico - Eu não precisava pagar por esse turno a mais. Mas compensou,
porque tive 37% a mais de produtos. Essa é a conta que o empresário tem que
fazer. Produto final! Agora, depois tenho que vender o produto, mas como
posso vender mais barato tomei o mercado do meu concorrente e os produtos
saíram. O investimento acabou sendo vantagem pra mim. O pessoal contratado
vem todo do nosso município e precisei investir quatro meses em treinamento,
mas esse é um ônus único, pois como não tem rotatividade - acredito que vão
continuar na fábrica - vale o investimento. Eles se agarram ao emprego, e
como eles são bons não tenho razão para mandá-los embora. Tudo é uma questão
de venda. Se você chega para o empresário sugerindo reduzir a carga horária
de oito pra seis não tem problema nenhum porque ele pensa em reduzir o
salário. Não tem maldade pior do que reduzir salários, é melhor então nem
fazer nada. O sujeito já não agüenta viver com aquele salário, imagine com
um menor. Vai ter que arrumar outro emprego, fazer hora-extra, o diabo. Você
tem que vender o raciocínio de que se o empregado trabalhar menos recebendo
o mesmo salário é vantagem para o empresário. Trabalhar oito horas é como
correr uma maratona, tem um galeio. Quando você corre cem metros rasos é
outra velocidade.
Ziraldo - O cara corre muito mais trabalhando seis horas.
Chico - Mas se o patrão tiver a vantagem do aumento de velocidade e
da produtividade sem pagar nada por isso será o gestor do sacrifício do
próximo, não tem cabimento. O talentoso e o criativo é ele, quem tem fé pra
descobrir soluções é ele, então ele é que tem que botar essa carga nos
ombros. No ambiente em que estamos hoje não há como aprovar uma lei nesse
sentido, até porque há um risco nisso, pois o Congresso Nacional,
pressionado pela sociedade, é capaz de fazer algo pior do que a lei
trabalhista que está aí, que ao contrário de ampliar as ofertas reduz a
vontade do empresário de contratar mais gente. A reforma trabalhista tem que
ser uma parte do pacto. E tem que ser um pacto com prazo. O empresário só
faz as coisas quando tem prazo pra acabar. Se eu falo "compra isso aqui e,
se daqui a um ano você não gostar, pode devolver", ele compra. Usando tática
de venda, o empresário topa. A proposta chama-se PEPE (Pacto Empresarial do
Pleno Emprego). Tem um prazo de três anos. Reduz as oito horas de trabalho
para seis, de segunda a sábado. Ao invés das 44 horas de hoje, 36 horas de
trabalho semanal. Naturalmente, isso tem que ser feito em mutirão. Só vai
dar certo com a participação da sociedade. Cada um dos atores no processo
faz o que pode. O empregado, nesse momento, não pode fazer nada de
sacrifício pecuniário, mas pode fazer o aumento da produtividade. E pode
aproveitar as duas horas de diferença pra estudar. O empresário tem de pagar
algum curso pra ele, porque também é um investimento. E pode também convocar
o empregado pra cuidar de sua saúde.
Ziraldo - Qualquer empresário tem o maior zelo com suas máquinas.
Manda lubrificar, manda ajustar, conserta... Mas não lembra que o operário é
uma máquina que trabalha pra ele.
Chico - Se a máquina quebrar ele tem que pagar outra. O empregado ele
descarta sem custo. Manda embora e traz outro pro lugar. Se ele não gostar
da cor do empregado ele troca. A máquina pode ser horrível que ele mantém,
porque uma máquina usada não vale nada no mercado. Então, estamos lançando
agora o PEPE no Paraná, com o governador Requião concedendo uma dilatação de
prazo no ICMS pra quem ingressar no programa e comprovar o aumento de 20% no
quadro dos funcionários através da redução da jornada de trabalho. A Copel
dará também 50% de desconto na tarifa sobre o excedente de consumo em
relação ao ano anterior. Claro, havendo mais possibilidades de emprego as
pessoas vão consumir mais, além do aumento de energia para a produção de
mais produtos. É evidente que, se você ganha pelo aumento da produtividade,
há aumento também de alguns custos. Por exemplo: para produzir mais se gasta
mais matéria-prima. Os insumos aumentam. Mas as instalações são as mesmas, a
iluminação é a mesma, a manutenção das máquinas é a mesma, tem uma série de
custos que não aumentam e vai acabar sendo um bom negócio pro empresário,
embora não seja essa a finalidade.
VOU SER VICE-PRESIDENTE DA FEDERAÇÃO
DAS INDÚSTRIAS DO PARANÁ. A CONDIÇÃO QUE COLOQUEI PARA ACEITAR ENTRAR NA
CHAPA É A DE QUE O PRESIDENTE DA FEDERAÇÃO DESENVOLVA O PEPE NA SUA EMPRESA,
A NUTRIMENTAL. ELE FEZ DUAS OU TRÊS REUNIÕES COM O PESSOAL DELE, FIZERAM
TODOS OS CÁLCULOS E CHEGARAM À CONCLUSÃO DE QUE NÃO ERA VANTAGEM. FALEI:
"ESCUTA, ALGUMA VEZ EU DISSE PARA VOCÊ QUE ISSO ERA VANTAGEM? ISSO É UM
SACRIFÍCIO NOSSO".
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