Clipping

VIVEMOS O FINAL DE UM PERÍODO HISTÓRICO, POIS O CICLO COMEÇADO COM A
REVOLUÇÃO FRANCESA SE ESGOTOU

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Ziraldo - Ao lado da fábrica do Chico tem uma de espanhóis, com o mesmo terreno. O dele é esse jardim francês. O dos espanhóis, modernos, é cheio de voçoroca, é um horror. Os caras tavam putos com ele porque ele ficava plantando flor e embelezando o terreno. Aí ele falou: "Mas então por que vocês não plantam flores?" "Fizemos os cálculos e vimos que não dava retorno", disseram.

Boff - Só pensam no retorno financeiro.

Chico - Falei então que eles teriam que colocar outro vice-presidente, porque para eu ir pra Federação e agüentar reunião de empresário, aquela aporrinhação de reclamar do governo e botar a culpa em alguém, sem eu poder fazer nada...
Lembrei também que se ele quissese se notabilizar como presidente da Federação tinha que apresentar algo ousado. E completei: "Nesse momento estamos numa guerra, acuados pela criminalidade, pelo narcotráfico e pelo crime organizado. Estamos assustados".

Ziraldo - "Por que isso aconteceu, ô babaca?!"

Chico - "Pelo desemprego. Daqui a dez anos, se não tomarmos a decisão correta, a decisão boa para nós, nossa qualidade de vida vai ficar cada vez pior. Você já está andando com guarda-costas. Manda blindar o automóvel. E teus netos, como vão fazer? Você tem que enxergar além do computador. O computador só tem memória, quem informa a ele o que fazer é você. Tem que inserir no seu software informações que ninguém colocou no computador e depois perguntar de novo pra ver o que ele vai te responder." "É, mas nós vamos perder tanto e..." "Como é que você espera fazer um sacrifício sem perder? É para perder na largada. Por que um empresário não pode fazer um planejamento de 20 anos? Porque o retorno certamente virá." Daí chegamos à conclusão de que a Nutrimental vai fazer o PEPE. Queremos começar esse movimento no Paraná, juntando umas dez ou 15 empresas - porque tem gente com essa cabeça lá - criando uns 1.500 empregos, anunciando essas vagas num evento com o presidente da República, para que ele passe a capitanear o processo e lance esse desafio para o resto do Brasil. Se isso acontecer no Brasil inteiro em 90 dias não teremos mais desempregados. Se cada empresa puser mais 20% de pessoas lá dentro acaba o desemprego no Brasil. É evidente que tem empresas que não têm condições de fazer isso, mas temos que tentar. Não há outra solução: temos que eliminar o desemprego ou ir para o caos. A sociedade já está percebendo isso. OS POLÍTICOS, PRESSIONADOS PELA SOCIEDADE, PODEM APROVAR ALGO SIMILAR QUE ACABE VIRANDO UM FRANKENSTEIN DENTRO DO CONGRESSO. NÓS, EMPRESÁRIOS, TEMOS QUE TER A INTELIGÊNCIA PRA NOS CREDIBILIZAR TOMANDO A INICIATIVA, RESOLVENDO O PROBLEMA E CONQUISTANDO O DIREITO DE SENTAR NA MESA COM OS TRABALHADORES E OS PENSADORES E REFAZER NOSSA LEGISLAÇÃO TRABALHISTA. Como a mãe faz em casa: vamos harmonizar isso. Qual é o pacto? Daqui a três anos volta tudo ao status quo anterior. Os empregados contratados serão por três anos. Agora, três anos depois, teremos solucionado a questão do desemprego e será um fato consumado.

Ziraldo - Nós abrimos com a fala do Chediak, passamos pela roda, e agora vamos voltar novamente ao Chediak.

Jesus - Começamos bem a nossa proposta, mas temos ainda que fazer uma pergunta fundamental: é o Brasil um país eurocentrado?

Ziraldo - Nós temos que fazer que nem o Japão, onde o mapa-múndi não é a Projeção de Mercator, que bota os gringos como centro do mundo. No Japão o centro é o Japão. Jesus - Nosso mapa-múndi é de cabeça pra baixo, porque nossa referência não é a Estrela Polar, que é do Hemisfério Norte, a nossa é o Cruzeiro do Sul. Vamos botar o Brasil pra frente e os EUA e a Europa lá embaixo!

Ricky - Sem falar que no mapa-múndi tradicional os EUA e a Europa têm seu tamanho inflacionado.

Jesus - A questão central é: se não apresentarmos um novo modelo de sociedade o Brasil vai continuar sendo uma agência gestora do capital internacional.

Luiz Gonzaga - Como era na administração colonial.

Jesus - Quem manda no país é o Banco Central e um Estado atrelado ao FMI. Vemos o FMI e todo o poder econômico internacional elogiando o Lula como um grande parceiro, mais até do que FH! Precisamos conseguir uma base teórica dentro da qual possamos emergir e nos expandir, levando isso pras universidades, como fazíamos antes, com as propostas da UNE. No tempo do Partidão levávamos propostas para todos os lados. Precisamos transformar esse debate num movimento.

Luiz Gonzaga - Esse vento que está batendo aqui, nos envolvendo a todos, vem de 68. A cultura brasileira cometeu um erro grande ao remover 68. A autocrítica das táticas foi tão feroz que ficou parecendo que 68 foi um erro. O erro é achar 68 errado. O que é isso, companheiro? é um episódio de uma ação. Não podemos confundir a revolução brasileira com um livro do Gabeira. Repensar agora é retomar os sonhos de Brasil que tínhamos em 68. Nenhuma sociedade humana considera um erro que seus filhos mais jovens e mais inteligentes tenham colocado suas próprias vidas na balança da História para garantir as liberdades daquela sociedade. Isso deveria ser reverenciado! A Itália reverencia os partisans, a França reverencia a Resistência, mas nós removemos isso como sendo um período de porra-louquice. Não, 68 foi o último momento em que sonhamos o Brasil, quando ele poderia ser um país diferente. Era um país menos contraditório, a qualidade de vida era melhor do que é hoje, no entanto resolvemos fazer uma revolução. Por quê? Queríamos um mundo mais humano, mais bonito, mais alegre. Isso é que é o 68. Uma chama que nos aquece nos nossos sonhos de hoje e que pode alimentar nossas possibilidades de refundar o Brasil. Se pensarmos que nossa herança é o território, com uma população mestiça, e se nossa cultura é o impulso, com o democrático e o participatório, poderemos orientar a fundação de uma sociedade humana que nunca existiu.

Jesus - E o Cristianismo está na base disso.

Luiz Gonzaga - Então respondo à pergunta do Jesus: não somos eurocêntricos, somos universais. Precisamos é substituir o eurocentrismo por algo mais profundo e que já existe dentro de nós há 500 anos.

Jesus - Vinicius de Moraes me disse: "Ninguém é universal fora de seu quintal".

Luiz Gonzaga - O eurocentrismo é a modernidade que criou esse sistema de desigualdade mundial e permitiu concentrar os recursos. Ser moderno é ser conservador. A refundação do Brasil escapa da modernidade e propõe um outro modelo civilizatório. Não podemos esperar que Guatemala ou Cuba façam isso. É o nosso papel como filho maior da modernidade. Amo o Brasil desde pequenininho. Descobri esse amor com sete anos, na Praça da Matriz de Montes Claros, quando num Sete de Setembro muito ensolarado e quente a Bandeira do Brasil, balançando, deu uma roçada no meu rosto e senti um arrepio que nunca mais acabou!

Boff - Ela te escolheu, meu fillho.
 
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