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VIVEMOS O FINAL DE UM PERÍODO HISTÓRICO, POIS O CICLO COMEÇADO COM A
REVOLUÇÃO FRANCESA SE ESGOTOU

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Esse desafio se traduz em três agendas que são quatro, como os Três Mosqueteiros. A primeira é a da transformação produtiva. Todos os ciclos econômicos do Brasil foram predatórios. O ciclo do pau brasil detonou a Mata Atlântica, adoeceu os índios, gerou guerras de tribos. O ciclo da cana-de-açúcar gerou a casa-grande e a senzala e trouxe os escravos.
Luís Gonzaga descreveu tão bem como instalou-se aqui um empreendimento agrário exportador moderno mas com uma iniqüidade social terrível. O ciclo do ouro, o ciclo da mineração, todos os ciclos foram gerando transformação produtiva sem eqüidade social. A segunda agenda é a da eqüidade social. Na América do Norte as transformações produtivas foram capazes de gerar maiores graus de eqüidade social. É preciso implantar isso no Brasil. A terceira é a agenda da Cidadania e da Justiça. É o que Luís Gonzaga chamou de refundação do Brasil em termos de uma sociedade forte e não de um empreendimento. A quarta é a agenda do Boff: a transcendência. Buscar o significado e o sentido profundo de tudo isso nas grandes forças culturais que plasmaram a nossa história, para que esse sentido e significado - ou seja, a nossa cultura - possa presidir a construção das outras três agendas. O que nós somos dentro da família humana. A nossa destinação superior.

Boff - De caráter ético, não ideológico.

ANTONIO CARLOS - TUDO É POLÍTICA MAS POLÍTICA NÃO É TUDO. ACIMA DA POLÍTICA ESTÁ A ÉTICA. Lula tinha que ter assumido uma posição ético-política e não geopolítica. A pós-modernidade é superar o tangível pelo intangível e o capital do Lula é muito mais o intangível. No tangível já estamos derrotados.

Boff - Escrevi um artigo no JB falando exatamente isso ao comparar o discurso do Bush e o do Lula. Bush preso ao sistema, com medo, e Lula replantando a questão da fome como um grande desafio à Humanidade. Propondo um patamar mais alto de relação entre os seres humanos. O discurso ético do Lula é a única revolução possível dentro da globalização.

Antonio Carlos - Em seu discurso de posse Lula teve duas palavras:

1) A CO-RESPONSABILIDADE PELO TODO. NISSO O MUNDO EMPRESARIAL PODE PARTICIPAR.

2) A ASSOCIAÇÃO DO DESENVOLVIMENTO COM OPORTUNIDADES PARA AS PESSOAS.

Boff - Conforme o Amartya Sen. [Economista hindu, professor de Ciências Econômicas nas universidades de Harvard, de Oxford e de Cambridge, prêmio Nobel de Economia em 1998, é hoje um dos maiores especialistas do mundo sobre a questão da pobreza]

Antonio Carlos - Como professor de Didática sou um simplificador, um reducionista, vendo como as coisas podem chegar a todos. Dentro disso li Desenvolvimento como Liberdade, de Amartya Sen, e observei nove pontos. O primeiro ponto é o universalismo do direito à vida. O segundo é que cada ser humano nasce com um potencial e tem o direito de desenvolvê-lo. Eu descobri que educação não é um direito. O direito que todo ser humano tem é o de desenvolver seu potencial, as promessas que trouxe consigo ao vir para esse mundo. A educação é uma estratégia para fazer isso acontecer. Se você olhar todas as oportunidades que são oferecidas ao ser humano, as mais transcendentes são as educativas. As outras criam condições para isso. Se você der casa, comida, roupa, cama, remédio, sem dar a oportunidade de a pessoa desenvolver seu potencial, cronifica essa pessoa na sua dependência. Esse é o perigo do assistencialismo. Por isso é que não gosto de falar de responsabilidade social. É aquela coisa: "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas". Se eu te cativo e me torno responsável por você, estabeleci uma relação vertical. Temos que ser co-responsáveis. Prefiro então falar de co-responsabilidade social.

Boff - É muito mais profundo.

Antonio Carlos - Vamos pensar cada ser humano. Cada um de nós que está aqui. O que somos hoje? Somos as oportunidades que tivemos e as escolhas que fizemos. Não adianta ter as oportunidades e fazer as escolhas erradas. Não adianta também fazer as escolhas certas e não ter oportunidades. Sou contra os parâmetros do conteúdo curricular chamado Ética. Deveria ser Educação para Valores. Ética é uma disciplina filosófica.
 
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