
O professor Antonio Carlos Gomes da Costa ministrou na noite de ontem a
palestra “Educação de Qualidade para Todos. Todos pela Qualidade da
Educação” para educadores e profissionais da educação no Teatro Municipal
Manoel Lyra. A exposição feita pelo educador faz parte da programação do 7º
Encontro de Educadores, que começou na quarta-feira e se encerra hoje.
Na manhã de ontem, o educador atendeu o Diário nas dependências do Núcleo de
Educação Integrada. Na ocasião, falou sobre qual seria o caminho para a
melhoria da qualidade de ensino público, do Programa de Aceleração do
Crescimento - PAC da Educação, Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da
Educação Básica - Fundeb, progressão continuada, violência escolar, entre
outros assuntos. Confira nesta página a entrevista do professor Antonio
Carlos Gomes da Costa.
Para o pedagogo três coisas são necessárias para melhorar a educação:
compromisso ético, vontade política e competência técnica. Na sua avaliação,
isso é o banquinho de três pernas sobre o qual uma nova educação brasileira
poderá se apoiar.
Qual os principais problemas da educação?
O principal problema da educação brasileira é a qualidade do ensino. No
século XX o Brasil conseguiu colocar 97% das crianças e adolescentes em
idade escolar na escola, mas a qualidade do ensino, com isso, se deteriorou
bastante. Então, quantidade e qualidade têm agido como duas irmãs inimigas
onde uma entra a outra sai. Quando existe uma grande expansão quantitativa
igual agora com o Ensino Médio a qualidade do ensino acaba caindo bastante e
isso nos temos que superar nas próximas décadas.
Quais os caminhos para melhorar a educação?
Os caminhos para melhorar a educação são longos e complexos. A melhoria da
educação não é uma corrida de 100 metros rasos é uma maratona, para usar uma
linguagem do Pan (Jogos Pan-Americanos), e requer mudanças profundas não só
na relação educador/ educando, na formação do professor, nas mudanças de
conteúdo, método e de gestão do sistema de ensino brasileiro. É uma grande
tarefa que o Brasil tem para as próximas décadas e nos não devemos ser
imediatistas. Eu fico feliz em ver aqui um encontro, que já está no sétimo
Encontro de Educadores. Isso mostra como o processo é complexo e é longo e
nós temos que ir devagar porque temos pressa.
Qual a opinião do senhor sobre o PAC da Educação?
Todo esse pacote de medidas que o atual ministro de Educação (Fernando
Haddad) está lançando tem uma virtude e muita coisa da sociedade foi
incorporada. O Brasil está promovendo avaliação externa das escolas isso
começou nos anos 90 e teve continuidade agora. Todas as escolas foram fazer
prova, ter meta para avaliar a qualidade do ensino, as medidas mais
polêmicas de inclusão escolar como ProUni (Programa Universidade para
todos), o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), o Fundeb
(Fundo para o Desenvolvimento da Educação Básica), estão mostrando que a
educação está sendo vista no Brasil como uma política mais que social, como
uma política estratégica, uma política essencial para o desenvolvimento
econômico, social e político do país. Isso porque se o Brasil não vencer a
corrida da educação nós não vamos cumprir as tarefas do século XXI.
Muito se fala sobre a violência escolar. O que pode ser feito para
solucionar?
A LDB (Lei de Diretrizes e Bases) a Lei Darci Ribeiro começa dizendo que a
educação abrange todos os processos formativos que se dão na família, nas
instituições de ensino e pesquisa, no mundo do trabalho, nos movimentos
sociais e nas atividades culturais, nas organizações da sociedade civil e
nas atividades culturais. A educação tem que ser entendida desta forma. Ela
tem que procurar desenvolver não só os conteúdos intelectuais, os conteúdos
acadêmicos, mas as novas capacidades: o aprender a ser, que são as
competências pessoais; o aprender a conviver, que são as competências
relacionais; o aprender a fazer, que são as competências produtivas; e o
aprender a conhecer, que são as competências cognitivas necessárias para uma
educação ao longo de toda a vida.
A grande característica da educação está transbordando, desbordando os
limites da família e da escola. No caso da violência na escola existe uma
expectativa da escola de que as crianças sejam formadas em valores pela
família e existe uma expectativa da família que as crianças sejam formadas
em valores pela escola, porque a mulher ingressou no mundo do trabalho e
hoje é muito comum a mulher e o marido trabalharem e as crianças ficarem com
a televisão ou a empregada doméstica e a falta de uma educação integral, em
tempo integral faz com que uma parcela do dia, principalmente os
adolescentes, você não sabe dizer o que estão fazendo. É preciso repensar,
reinventar a relação escola, família e comunidade para ter uma educação não
só em tempo integral, mas uma educação integrada.
Progressão continuada e ensino de nove anos
O ensino de nove anos eu acho fundamental a criança ter um ano a mais de
escolarização para adquirir prontidão para alfabetização. Quanto à
progressão continuada, que não é aprovação automática, igual as pessoas
falam, é necessário para que não seja aprovação automática que tenha
avaliação no processo, que as crianças passo a passo sejam avaliadas e as
defasagens vão sendo corrigidas ao longo do processo. Sem avaliação do
processo a progressão continuada se transforma em aprovação automática e daí
temos alunos chegando no final do Ensino Fundamental semi-analfabetos ou até
mesmo analfabetos.
O que o senhor acha da promessa de campanha do governador Serra de ter dois
professores em sala de aula nas séries iniciais?
A Coréia foi um exemplo de evolução educacional, quase 100% dos jovens tem
ensino médio completo e um ensino de alta qualidade. No ranking da educação
a Coréia aparece muito bem e lá o que se vê as salas de aula são 50 alunos e
um professor, enquanto na Escandinávia, vê-se sala de aula com 12, 20 alunos
e um professor. Essa idéia de dois professores em sala de aula é claro que
quanto mais educação, quanto mais professor melhor, mas eu não acho que isso
seja o fundamental. Eu acho que o fundamental é a qualidade desse professor
e não a quantidade de professores.
Neste ano, foi implantado o Fundeb. O que o senhor pensa sobre o assunto?
No governo anterior nos tivemos um Fundo de Desenvolvimento do Ensino
Fundamental – Fundef e nesse governo temos um Fundo de Desenvolvimento da
Educação Básica - Fundeb que abrange a educação infantil, o ensino
fundamental e o ensino médio. Isso mostra que a educação está ganhando peso
na agenda brasileira tanto na agenda econômica como social porque a educação
de qualidade para todos é uma causa pela qual vale a pena trabalhar e lutar
e é imprescindível para o Brasil atingir os seus objetivos a sua destinação
superior no plano econômico, social e político. O Fundeb mostra que a causa
da educação está ganhando peso na agenda política brasileira.
O governo deve investir em educação básica ou ensino universitário?
Sem dúvida, devemos começar pela base da pirâmide. O Brasil já teve um dos
maiores programas de pós-graduação financiado pelo governo federal do
terceiro mundo e isso não levou um grande progresso à educação. Acho que se
tivéssemos investido na base da pirâmide como fez a Coréia estaríamos muito
melhor. O Cláudio Moura Castro, crítico importante da educação brasileira,
ele fala que a diferença dos tigres asiáticos e as onças latino-americanas e
que os tigres asiáticos investiram no ensino fundamental, na base da
pirâmide, e nos começamos a construir a pirâmide pelo teto.
Qual a mensagem para os professores para melhorar a educação?
A primeira mensagem é a formação básica do professor. É preciso melhorar a
formação básica do professor nos cursos de pedagogia e de licenciatura é
preciso a formação permanente dos professores como neste 7º encontro. É
preciso esforço permanente no magistério. Eu costumo dizer é preciso três
coisas: primeiro, compromisso ético com a causa da educação, porque a causa
da educação é a viabilização de uma geração de crianças, adolescentes e
jovens brasileiros, que possam levar o Brasil a vencer os seus principais
desafios a pobreza, a ignorância e a brutalidade. Segundo, além do
compromisso ético a vontade política dos governantes de transformar a
educação em uma política pública mais do que uma política de governo para
que as ações tenham continuidade e não sejam interrompidas a cada quatro
anos e se comece tudo de novo. A terceira coisa é a competência técnica.
Então, com compromisso ético, vontade política e competência técnica,
teremos o banquinho de três pernas sobre o qual uma nova educação brasileira
poderá se apoiar.
Fale sobre a sua experiência como educador
Comecei a minha vida estudando medicina e fiz medicina até o terceiro ano
depois eu larguei para fazer pedagogia. Eu abracei a educação
conscientemente. Minha trajetória, eu fui diretor de uma unidade da Febem de
Minas Gerais, morando dentro da unidade com minha esposa durante sete anos,
fui presidente da Febem no governo Tancredo Neves, secretário da Educação em
minha cidade Belo Horizonte e depois trabalhei em organismos internacionais
Unicef, Unesco e a Organização Internacional do Trabalho OIT como consultor.
Atualmente tenho uma organização de consultoria e criei também uma pequena
fundação para qual eu pretendo deixar um centro de treinamento que eu
construí nos últimos 10 anos. Eu e minha esposa não temos descendentes
biológicos então vamos deixar descendentes pedagógicos. Escrevi entre 30 a
40 livros sobre educação.
Fonte: Jornal Diário de Santa Bárbara de 20 de junho de 2007
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