Antônio Carlos Gomes da Costa
Manoel Castells, na virada do século, escreveu um livro belo e instigante, cujo prefácio leva a assinatura de um sociólogo chamado Fernando Henrique Cardoso. Trata-se, segundo nosso ex-presidente, de uma obra fundamental para o entendimento dos tempos em que estamos desafiados a viver: A SOCIEDADE EM REDE é o nome deste texto seminal. Nele, como não podia deixar de ser, o autor trata das novas tecnologias de comunicação e informação e de seu impacto imenso e multifacetado sobre a vida das pessoas, das organizações, das nações e do mundo em toda as inteireza e complexidade.
Sociedade e redes. Este é um binômio que acompanha a aventura humana na face da Terra desde os seus primórdios.
As primeiras redes foram os caminhos, as estradas, possibilitando aos seres humanos deslocarem-se de forma orientada de um lugar para o outro. Caminhos na terra e na água. Depois, com o advento das cidades, vieram as redes urbanas. As ruas, espaço vivo entre as edificações, viabilizaram a estruturação de espaços onde o público e o privado se limitavam e se delimitavam com clareza.
Para o surgimento de grandes cidades – como Atenas e Roma – foi fundamental a construção de redes de água (aquedutos), onde as águas para uso e as águas servidas tinham percursos claros e bem traçados, possibilitando um extraordinário salto na qualidade de vida das populações.
A perda dessa tecnologia, durante a Idade Média, foi a principal responsável pela queda na qualidade de vida em relação aos padrões alcançados no império Romano. A Peste Negra, que eliminou um terço da população da Europa, foi um dos preços mais dolorosos dessa involução tecnológica.
A grande característica comum dessas redes tecnológicas pré-modernas foi o fato de elas alcançarem segmentos restritos das populações dos países onde foram criadas. Essas redes, de fato, nunca foram pensadas para todos. Elas foram sempre concebidas e estruturadas apenas para segmentos restritos das populações.
O advento da modernidade iluminista, com seus ideais de democracia, economia de mercado e fé inabalável na razão, na ciência e na técnica confrontou as sociedades com o desafio de criar redes de alcance universal dentro de um país, ou seja, redes capazes de alcançar a todos os cidadãos. Assim, surgiu e evoluiu rapidamente a idéia de redes de serviços públicos gratuitos, universais e obrigatórios, como as redes de educação, de saúde e de serviços de segurança.
O impacto tecnológico, a partir daí, foi crescente. O sanitarismo revolucionou as redes de água e esgoto. As redes de gás e de eletricidade revolucionaram o estilo de vida. A noite passou a ter mais luzes. Depois, vieram as redes de som, com a telefonia e a radiodifusão e, mais tarde, as redes de imagens, com o surgimento das redes televisivas. Hoje, as redes de comunicação e informação são a nova fronteira a dividir países, regiões e pessoas dentro de uma mesma sociedade.
O termo alfabetização digital dá conta do significado e do sentido do acesso às tecnologias da informação para o exercício da cidadania no século XXI. Os países que deram certo, ao longo do processo civilizatório, foram aqueles que se mostraram capazes de incluir o conjunto de suas populações no acesso a cada uma dessas redes.
Países que ainda não deram certo, como o Brasil, se revelaram, ao longo de sua evolução histórica, incapazes de assegurar a inclusão em grande escala de seus povos no usufruto desses avanços tecnológicos.
Essa realidade de apartação acaba dividindo os habitantes dessas sociedades em cidadãos e subcidadãos. Mais de quarenta por cento de nossa gente ainda não tem acesso ao saneamento básico, a rede elétrica ainda não chegou à totalidade dos domicílios, os serviços de saúde e de educação conheceram nas últimas décadas um grande avanço quantitativo. Sua qualidade, porém, vem se deteriorando de forma lamentável.
Uma das características do nosso padrão histórico de desenvolvimento é a incapacidade quase congênita de conciliar quantidade e qualidade. Temos o hábito de tratar essas duas dimensões do desenvolvimento humano com duas irmãs inimigas. Tudo que se torna para todos, isto é, universal perde a qualidade e se degrada, relativizando os avanços quantitativos obtidos.
Nosso desafio é trabalhar a qualidade na lógica dos grandes números. Para isso, além das tecnologias digitais, precisamos de tecnologias sociais, isto é, de tecnologias capazes de transformar a exceção de hoje na regra feliz de amanhã.
Diante disso, proponho que, no contexto debate sobre Mobilização Social e Redes, em termos de desenvolvimento humano, nossa causa maior, deva sempre ser emoldurado por três preocupações de fundo:
O compromisso com a ética da co-responsabilidade pelo todo, fazendo convergir as ações do mundo empresarial, das políticas públicas e das organizações do terceiro setor em favor de uma causa comum: o desenvolvimento das novas gerações de brasileiros;
A vontade política de atuar coletivamente e em nível macro, empreendendo ações capazes de marcar diferença, gerar impacto e agregar valor à bandeira que estamos desfraldando no campo do desenvolvimento, que é a diminuição da distância, que hoje separa nosso PIB de nosso IDH, fazendo do Brasil um país de apartação econômico-social maior do que aquela encontrada na África do Sul;
A competência técnica, para criar os acontecimentos necessários para que a educação de qualidade para todos, por exemplo, deixe de ser uma aspiração longínqua e se torne uma realidade presente no cotidiano dos professores e alunos de nossas escolas.
O futuro – segundo Edgard Faure – não foi feito para ser previsto, mas para ser inventado e construído. E é para isto que nós estamos aqui.Rua São Paulo, 409 - Sala 2402 - Centro
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